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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

alternativa


um galo
[o mesmo que não tece a manhã]
canta alto no calor da tarde

[são três e meia]

na tentativa de
                     mudando o parâmetro
[para póstumo espanto do poeta João]
súbito


tecê-la



Márcia Maia©


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Verde vida en la ventana


                                    para Gerusa


Quando voltou, a esperança ainda estava lá. Pousada tranquilamente sobre o computador. Nem ligou para a janela que, deliberadamente, deixara aberta na esperança de não aprisioná-la. Porque uma esperança prisioneira decerto é pior que esperança alguma. Ou não. Visto que nesse exato momento, abria as asas e voava até a borda da janela. Para em seguida, pousar na tela do monitor como a espreitar o que, sobre ela, ele escrevia.



Márcia Maia


domingo, 11 de novembro de 2012

novembro 11 13:40


dois navios


um
a metro e meio
do horizonte

outro
a menos metro e meio
do mesmo horizonte

a terra é redonda

[nenhuma surpresa
diria
eratóstenes

(aquele do crivo)

provei-o por a+b
três séculos antes de cristo]



Márcia Maia


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

agosto 31 18:30




nem azul
imensa e cor de madrepérola
                                a lua
              despida de amores
perdoa o lugar-comum
                             e baila
além da minha janela



Márcia Maia



domingo, 12 de agosto de 2012























De meu pai herdei a cor da pele
e um leve inclinar da cabeça
para a direita
nas fotografias.
Um jeito intenso de viver
amar e dar presentes.
Uma afabilidade cúmplice
no trato com as pessoas
além da profissão
exercida como sacerdócio.
O gostar de almôndegas
cozido e guisado
a mania de cortar toda a carne
no prato
antes de comê-la
e o incômodo de acordar
às quatro e meia
quando poderia dormir
até às dez.



Márcia Maia


domingo, 29 de julho de 2012

análise


de flor e faca
de faca e flor

o ser que sou
e o que fui e se perdeu
num vão qualquer de algum
caminho
que em sendo verso
ao invés de afago ou gesto
não passa de artifício
mero jogo de palavras
inúteis inábeis inertes
vazias

como flor e faca
como faca e flor



Márcia Maia


terça-feira, 24 de julho de 2012

julho 24 28º andar 17:50




negras
as nuvens
rolam sobre milhares
de pontos coloridos e brilhantes

como véu de viúva envolvendo vagalumes


Márcia Maia


quarta-feira, 11 de julho de 2012

versos de circunstância


porque é inverno e chove 

porque por acaso faz frio 

os frascos da memória 
se me abrem 

no cheiro acre de mofo 
que emana das gavetas 

no cheiro doce do chá 
fumegando sobre a mesa 

no vestir da blusa cinza 
de lã fina 

que me deste num antigo 
aniversário 

porque era inverno e chovia 
porque por acaso era frio



Márcia Maia



sexta-feira, 29 de junho de 2012

O transplante

picasso©






















Por velho e cansado, desejei transplantar-me o coração. Em seu lugar, poria um cacto. Um tenro cacto, de folhas espessas e raros espinhos. Assim o fiz, não sem uma pitada de receio. Agora, quase um ano depois, nos damos bem, eu e o meu coração-cacto. Do antigo, herdou o vício de amar, bem mais contido. E por ser cacto, se acaso chora, não sangra, embora tenham seus espinhos crescido e me firam, vez por outra, quando abriga-se a saudade em meu peito.



Márcia Maia



terça-feira, 19 de junho de 2012

junho 19 23:50



chove                e eu hesito
entre programar o ar para
                   21
                   ou
                   22
                 graus
como se a diferença fosse
  algo além de um breve
eriçar dos pelos do antebraço

tolice                      filigrana
crochê tecido pela insônia



Márcia Maia


domingo, 10 de junho de 2012

manhãzinha



nem dália nem mangueira
(rosa tampouco)

só um canteiro de marias-
sem-vergonha

vermelhando a areia



Márcia Maia


quinta-feira, 10 de maio de 2012

espelho


o mel
dos teus olhos
no negror dos meus


Márcia Maia


sábado, 7 de abril de 2012

como napalm





















        para Saulo Jansen, com saudade


não rasgam-se as cortinas
nem cobrem-se os céus de relâmpagos

não ouvem-se trombetas
tampouco proclamas

só o silêncio escuro e espesso da ausência
entranha-se como napalm

à pele à mente à alma



Márcia Maia


sábado, 31 de março de 2012

Clarice



Toda uma vida e apenas três palavras. Dissera acácia, ao adolescer e apaixonar-se por um Artur que tantos criam imaginário. E então, antúrio, ao ser por ele brutalmente violada. Anos depois, disse nenúfar. Três dias antes de afogar-se onde nunca houvera água. 



Márcia Maia 


sábado, 17 de março de 2012

versos de circunstância


a lua minguante amanhece o dia
o céu a custo azulece

a varanda range sob as sandálias

enquanto as lâmpadas da rua
ainda acesas douram as folhas

caídas do ipê sobre a calçada



Márcia Maia


sábado, 3 de março de 2012

saudade















essa coisa que dá um nó na gente
que aperta aperreia e faz chorar
e não tem jeito claro pra explicar
que diacho é aquilo que se sente
mais parece ser coisa de demente
não é raiva ou tristeza nem mania
nem remorso ou amor nem latomia
alegria então mesmo é que não é
é uma falta de ver quem ver se quer
é querer ter quem tanto se queria



Márcia Maia


Na foto, Pedro Jorge de Melo e Silva, meu imenso e querido amigo: hoje faz 30 anos que ele foi covardemente assassinado. E eu ainda sinto saudades suas todos os dias.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

anti-elegia


a dor
sobrepõe-se ao silêncio
quase religioso
do azul sem nuvens
que
               opressivo
derrama-se
sobre o vidro da janela

corrói e corrompe
conspurca a beleza do instante

numa concretude impalpável
indizivelmente real



Márcia Maia


sábado, 18 de fevereiro de 2012

sem fantasia

                                                                 













enquanto lili toca a flauta no mercado
naná comanda mil maracatus

os reis do carnaval exibem para
uns poucos foliões a fátua majestade

e os meus dias de frevo se dissolvem
na chuva que incansável encharca a cidade



Márcia Maia



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

nem só de carnaval é fevereiro


as nuvens de tão baixas cobrem 
o topo do edifício 
que ainda não é bem um edifício 
pois está em construção 

nas ruas os carros se apressam 
as pessoas se apressam 
antecipando-se à chuva que 
decerto há de cair 

(...) 

na calçada encolhidos 
dois cachorros e um mendigo 
fazem uns dos outros abrigo 
para dormir 



Márcia Maia


 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

quase um poema de amor


enquanto adormecido me abraças escuto teu coração
que me fala de cansaço algumas dores pequenos prazeres

do gol marcado aos quarenta e seis e meio do segundo tempo
da dor súbita fisgada na coxa
fisgada outra no peito que não sara

de histórias de ônibus e jardins
de estradas desertas noites estrelas
música às vezes lua à porta dos pequenos povoados

fala de metrô e poesia de filhos pequenos e crescidos
de amores sonhados vividos perdidos
beijos sem fim em parati jasmins de inverno

no sono teu braço me envolve mais próximo adormeço
e seguem-se segredos
como se teu coração apenas falasse de nós
dos sonhos que se escondem no avesso de teus olhos
onde rio onde ris e me amas — amas?
tua mão em meu rosto roçar ligeiro lábios teus meus

desperto

entre os lençóis vazios sinto o calor do teu sono ainda
na boca o gosto do beijo que foi sem nunca ter sido



Márcia Maia