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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Verde vida en la ventana


                                    para Gerusa


Quando voltou, a esperança ainda estava lá. Pousada tranquilamente sobre o computador. Nem ligou para a janela que, deliberadamente, deixara aberta na esperança de não aprisioná-la. Porque uma esperança prisioneira decerto é pior que esperança alguma. Ou não. Visto que nesse exato momento, abria as asas e voava até a borda da janela. Para em seguida, pousar na tela do monitor como a espreitar o que, sobre ela, ele escrevia.



Márcia Maia


sábado, 18 de agosto de 2012

Pequenas obscenidades


Pensava sempre nele nessa hora. A hora em que, casquinha de sorvete à mão, lambia lenta e delicadamente as bolas. Deliciando-se em dobro. A relembrar outros jogos de língua. Em tardes distantes. E por vir.



Márcia Maia


sábado, 31 de março de 2012

Clarice



Toda uma vida e apenas três palavras. Dissera acácia, ao adolescer e apaixonar-se por um Artur que tantos criam imaginário. E então, antúrio, ao ser por ele brutalmente violada. Anos depois, disse nenúfar. Três dias antes de afogar-se onde nunca houvera água. 



Márcia Maia 


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Instantâneo


Enquanto o filho caçula, doente e pródigo, dorme, ela vela. Não fia ou tece. Espreita o céu azul da tarde, pela janela aberta, e lê o jornal do dia. Mesmo assim, em seu velho vestido de algodão bordado, deitada sobre a cama, distraída, daria um belo quadro de Vermeer. Não fossem de prata seus brincos.



Márcia Maia


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Por um instante


Na sala de espera, mulheres. A maioria acima dos quarenta. Cuidando de suas vidas. Sós. Exceto duas, sentadas ao lado dos maridos. Dois casais. Um, urbano, classe média, elegante. Outro, do interior, roupas simples, faces marcadas de sol e rugas. E por um instante, só por um instante, aquele em que, quase simultaneamente, as duas entraram na sala de exames, de mãos dadas com os companheiros, a solidão descompassou os corações das outras mulheres, sentadas sós, na sala de espera.



Márcia Maia

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Quadrilha

















Vestido comprido, rodado, de chita estampada, com renda de almofada, babados e fitas. Chapéu de palha, camisa xadrez, calça enfeitada com remendos. Bandeirinhas coloridas de papel, fogueira, fogos, sanfoneiro. E a quadrilha. Padre, noiva, noivo, cabo de polícia e delegado, os pares a dançar enfileirados. Alavantú! Anarriê. Chã de damas. Outra vez. Chã de cavaleiros. Outra vez. Changê. Preparar para o caminho da roça. Caminho da roça. Olha a chuva. Choveu. Olha a chuva. Choveu. O marcador gritava e os pares, dançando, obedeciam. O suor escorria enquanto a noite avançava. Foi quando ele chegou. O antigo namorado. Vestido de cangaceiro. Embrenhou-se pelo meio da quadrilha. E atirou. No hora do casamento. Ninguém atinou que era de vera, o tiro. Ninguém percebeu que, dentre as flores da chita, uma nuvem escarlate apareceu E choveu sobre a blusa, sobre a saia do vestido. Até que a vida partiu. Ninguém notou. E ninguém viu. Até que a lua partiu. Até que o dia raiou. Até que a fogueira se extinguiu. Até muito depois que a quadrilha terminou.


Márcia Maia


quinta-feira, 31 de março de 2011

Insônia


Foi quando começou a ter alucinações. Depois da quinta noite sem dormir, as imagens mais estranhas lhe apareciam subitamente. Para desaparecer logo em seguida. No ar. Pensava nisso agora, enquanto dirigia. Exausto. Onze e meia. Sol a pino. Viu a moça morta aparecer e sumir no banco ao lado. Viu a imensa queda d'água derramar-se sobre o carro. E viu o mesmo caminhão do outro dia avançar na contra-mão. Então, não viu mais nada.



Márcia Maia


quinta-feira, 17 de março de 2011

Bobagens


Eu te amo, sabia? Ela riu. Sabia. E sabia também que não era verdade. É verdade,  sim, pode acreditar. Mas eu não disse nada, respondeu ainda rindo. Mas pensou, ele disse. Um leve silêncio se fez em ambos os lados da linha. Quebrado apenas pelo sinal de que o tempo da ligação se esgotava e pela voz dela, no último instante dizendo: também amo você. Pode acreditar.



Márcia Maia


domingo, 27 de fevereiro de 2011

Íntimo


alan klug©




















O maço vazio de cigarros. A xícara de café, ainda a meio. O livro aberto na página oitenta e três. A toalha úmida esquecida na cadeira. A quase-ausência. E o perfume imiscuído nos lençóis.



Márcia Maia


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Com destino


henry cartier-bresson©


Bala sabe que peito fere. Faca, também.
Dor, não. Mente.



Márcia Maia


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

"En écoutant la pluie..."





1,65, ele disse. Altura é problema pra você? Não. É só uma questão de escolher sapato, do tamanho do salto, do alto dos seus 1,76, ela respondeu. Um pequeníssimo silêncio se seguiu. Ele às voltas com sua altura real. Ela a pensar que casal estranho formariam. Se bem que em tempos de Carla Bruni e Sarkozy, altura era o de menos. Nua, diante do espelho, ela riu. Então, amanhã às seis? ele perguntou. Amanhã às seis. Quando o amanhã chegou, chovia a cântaros. Às seis, tudo era enxurrada. E ela, que tanto desejara aquele encontro, esquecendo Carla Bruni e Sarkozy, ligou o computador, abriu um vinho e preferiu ficar em casa.




Márcia Maia


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Paisagem na janela


Tenha paciência comigo, ele disse, pouco antes de adormecer no sofá, embriagado demais para o amor. E ela, que o amava mas não tinha o menor saco pra conversa de bêbado, tirou a roupa e estirou-se nua no ladrilho da varanda. Chovia fino. Uma nuvem escondera a lua. Deixou que a mão descesse até a vulva, abrindo os lábios e tocando o grelo, leve e ritmadamente. Masturbou-se longamente, mudando o ritmo, prolongando o prazer, adiando o gozo. E adormeceu sem perceber os dois adolescentes quase imberbes que, na janela do vizinho, a observavam, masturbando-se e gozando, repetidamente, com furor.



Márcia Maia


domingo, 26 de dezembro de 2010

Nem oráculo

A felicidade expressa em frases mínimas. A intimidade (falsamente) desnudada. Aqui e ali, uma ou outra ironia. O que é raro. Que bicho eu seria, que ator eu seria, que mito eu seria, que escritor eu seria, que pintor, escritor, cineasta e até que psicanalista eu seria? Quem realmente eu sou? Difícil saber. Tantas máscaras disponíveis. E a inquietação germinando em silêncio: meio a tantos seres/perfis bem resolvidos, belos e felizes, o único inquieto, só e triste serei eu? Responde-me facebook, como noutros tempos à rainha respondia o espelho, espelho meu.



Márcia Maia

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Touché!


— Está doente de quê? ele perguntou.
— Da alma, respondeu.
— Impossível! Você não acredita em alma!
— Nem ela acredita em mim...



Márcia Maia


domingo, 7 de novembro de 2010

Muito além do calendário


O que foi não é mais que aquarela desbotada na parede da alma. Vez em quando encanta. Vez em quando dói. Na maior parte do tempo, entretanto, é um imenso e etéreo quase nada.


Márcia Maia


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Para sempre



De olhos fechados, eu me movia para cima e para baixo, como um pêndulo, no movimento circular que ele, sob mim, mãos machucando-me o seio esquerdo e a cintura, tanto gostava. Gozei primeiro e, sem pressa, esperei até que ele gozasse, para cravar o canivete, três centímetros e meio à direita da metade do pescoço, abrindo-lhe, a um tempo, a jugular e a carótida, no momento exato em que, dentro em mim, ele jorrava. Sempre ouvi dizer que morrer na hora do orgasmo eterniza o gozo.



Márcia Maia


quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Heresia


Desde criança ria ao rezar o Pai Nosso. Quando chegava ao não nos deixeis cair em tentação, desatava a rir. De nada adiantaram os pedidos da mãe. Tampouco os da avó. Menos ainda os do pároco que, cansado daquela heresia, expulsou-a da igreja quando desatou a rir em pleno dia da primeira comunhão. Para vergonha eterna da família. Exceto do pai. O pai nada dizia. Mas ria baixinho pra mãe não perceber. E sempre pulava aquela parte nas raras vezes em que rezava.
Assim, de riso em riso, cresceu sem nunca se propor a não cair em tentação. Caía sempre. E era feliz.
Pensava nisso agora, ao ouvir o recado dele na secretária eletrônica, marcando para encontrá-la no dia seguinte. Três e meia da tarde? Que hora horrível, pensou, já imaginando a desculpa que daria para sair cedo do trabalho. Médico? Dentista? Doença na família? Não, já tinha adoecido todo mundo, não dava mais. Quem sabe uma enxaqueca? Ou uma terrível cólica menstrual? Riu. Depois decidiria. O certo é que por nada nesse mundo, deixaria de encontrá-lo. Cairia em tentação uma vez mais. E, mais uma vez, seria feliz. Amanhã, como ontem e para sempre. Amém.



Márcia Maia


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Quarto-crescente


A bem da verdade, já não era sexta-feira e sim, madrugada de sábado. Fazia calor, o rio exalava um cheiro acre, e naquele bar, onde quase todos se conheciam, ele, que a poucos conhecia, tocava.
Não era bonito. Camisa em desalinho, sem gravata, calça social, sapato horrível, paletó esquecido numa cadeira qualquer. Viera de um casamento. E tocava como um deus. Um deus tropical, trôpego e lascivo, com olhos de anjo, boca e mãos de cafajeste.
À saída, beijou-a sem pedir licença. Longamente. A ela, que não o conhecia. Depois, olhou-a nos olhos e disse que tanto a esperara. Ela riu. Conversa fiada, pensou. Nada disse. Deixou que a beijasse de novo antes de partir.
Amanhecera. O calor aumentara. O hálito do rio sossegara. Os amigos se entreolhavam. Ninguém entendera nada. Nem ela. Mas os dias nunca mais foram banais como antes.



Márcia Maia


terça-feira, 20 de julho de 2010

Longe do Paraíso


Vagando à noite, sob a luz esverdeada dos letreiros de néon, sentia frio. Chovera. Nas esquinas empoçadas, nos vidros das vitrines mal iluminadas, se via refletida e não se reconhecia. Uma saudade de árvores lhe vazava o peito. Pensou em se jogar do viaduto. Demasiado urbano. Pensou em se jogar no rio. Mas não era rio aquela água escura e fétida cheirando a esgoto e desespero. Pensou em tantas saídas. Mas se escusou de entrar naquele teatro, que se dizia mágico, e se oferecia aos raros e aos loucos. Não, não era a hora de mostrar-se a si inteira e nua. Não agora. Não ainda.




Márcia Maia



segunda-feira, 12 de julho de 2010

Octopus's Garden


Nem pitonisa nem serpente. Nem cigana nem mago. O novo vidente, sinal da modernidade dos tempos, é um molusco. Cefalópode. Bentônico. Da ordem dos octópodes. Com oito braços providos de ventosas. Concha ausente. Corpo globular. E sem nadadeiras. Um polvo! De aquário. Nem habitante do mar. Súdito exilado de Netuno. Vidrado em futebol. Acertou todas. Aos quatro ventos cantou a eliminação da sua pátria germânica. Talvez por cansado de aquário. E a vitória de España. Talvez por saudade do mar. Findada a Copa e temendo transformar-se em polvo ao chucrute ou mesmo em paella à moda alemã, roga proteção ao Greenpeace. E às sociedades protetoras dos animais. Não sabe se conseguirá.



Márcia Maia