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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sinfonia de agosto


Toshiuky Aizawa©
















Meio à paz da manhã de verão, o clarão maior que o sol. O ruído. O horror. Acordes de medo. De dor. De escárnio. De morte. Desde aquele dia. Até hoje. E para sempre.



Márcia Maia


sexta-feira, 29 de junho de 2012

O transplante

picasso©






















Por velho e cansado, desejei transplantar-me o coração. Em seu lugar, poria um cacto. Um tenro cacto, de folhas espessas e raros espinhos. Assim o fiz, não sem uma pitada de receio. Agora, quase um ano depois, nos damos bem, eu e o meu coração-cacto. Do antigo, herdou o vício de amar, bem mais contido. E por ser cacto, se acaso chora, não sangra, embora tenham seus espinhos crescido e me firam, vez por outra, quando abriga-se a saudade em meu peito.



Márcia Maia



sábado, 28 de janeiro de 2012

Meteorologia


magritte©

:

e embora tenha o dia finalmente amanhecido azul, uma nuvem se lhe persistia, pesada e cinza, sob as pálpebras, por trás dos olhos, deixando janeiro escuro e frio, com cara de junho, mesmo havendo retornado, lá fora, o verão.



Márcia Maia


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

beijo-beijo


roberto candia©
















valia tudo pra ganhar aquele prêmio até passar horas no meio da praça maior calor beijando o namorado da vizinha tão feio que eu sempre tinha tido tanta pena da coitada e não conseguia entender como ela tão bonita perdia tempo com aquele cara com jeito de abobalhado e a cara cheia de espinha e que só podia ter mau hálito nem eu nem ninguém entendia até agora no meio da praça quase esquecida do prêmio carro e viagem pra austrália e mais esquecida ainda da coitada da vizinha em casa com catapora mal começou e eu já tremia ficava toda molhada e de súbito entedia e invejava a coitada da vizinha tão bonita namorar aquele traste e como beijava o dito tão bem que eu nem me lembrava do jeito de abobalhado da cara cheia de espinha sei lá se tinha mau hálito agora só quero é ficar aqui por toda a eternidade boca a boca quietinha maior calor nessa praça no meio de toda essa gente e quando ganhar o concurso dou o carro pra vizinha e levo o cara de espinha junto comigo pra austrália e se ele não quiser ir não tem problema armo o maior barraco ameaço me matar choro grito dou pra ele e em último caso apelo e podem crer o seqüestro e deixo o meu namorado que é lindo de presente pra vizinha



Márcia Maia


sábado, 29 de outubro de 2011

voragem



abriu a janela e deixou que entrasse a chuva até que a casa-casa se tornasse casa-rio casa-mar  até que surgissem as primeiras algas e uma areia fina recobrisse o que era ladrilho e mármore  até que o primeiro peixe veloz e prateado reinventasse prazeres e caminhos  e então só então adormeceu



Márcia Maia


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

crianças nunca saem a passear de manhãzinha


entre as cinco e as sete de dentro dos edifícios eles saem a passear. os cachorros. acompanhados por seus donos quase sempre sonolentos. caminham pelas calçadas em alvoroço deixando à sua passagem um rastro interminável de cocô. que os pedestres durante o resto do dia caminhando em zigue-zague tentarão a todo custo evitar. semelharia paris não fosse o estado esburacado das calçadas e os meninos semi-nus adormecidos junto a frascos de cola sob a marquise.



Márcia Maia


sábado, 6 de agosto de 2011

Das coisas boas da vida


Márcia Maia©

















Vovó, qual é o horário em que você vem nos buscar?, pergunta Manuela. Eu rio e digo: onde você aprendeu a falar assim? E ela, toda séria, do alto dos seus três anos e onze meses, responde: Observando os adultos, ora.


Márcia Maia