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domingo, 13 de junho de 2010

De detalhes, faz-se a sina



nós, no natal de 2009


























Era 13 de junho: dia de Santo Antônio e São Fernando Pessoa. Santos portugueses. Dia, também, de Santo Yeats, irlandês. E ali, quase ao meio dia, com a sina traçada, eu nascia. Aos berros. Machucada de tempo perdido no trabalho de parto. Devia ter sido uma cesariana. Não foi. Ela é forte, a mãe, aguenta. Também teve que ser forte, o bebê: eu. No corredor, o pai ao telefone — jurássico — berrava: " É uma menina, linda, igual ao pai!" Que era lindo por dentro, o pai. E lá se ia aos poucos, completando-se-me a sina. Faltavam os sinos: tocaram ao meio-dia. E garantiram meu quinhão de alegria.
O tempo passou: tanto. Os caminhos — muitos — quase sempre pedregosos, com algumas pradarias. ( Lembram dos sinos?) Ou melhor, com algumas beiras-de-mar, que nunca gostei do campo. Que, aqui, se diz interior.
Sina cumprida, eis-me aqui: vivida de amor e poesia. Nem sempre felizes, amores e versos, sempre me valeu a pena vivê-los. Valem-me ainda. Como o pai, médica. Um tanto descrente e cética. E paradoxalmente, certa de que "tudo vale a pena, se a alma não é pequena", como escreveu um dos meus santos padroeiros.
Entre bruma e meio-dia, ostra e pássaro, pedra e vento, talvez, mar: assim eu sou. Uma mulher. Nada além. E como disse outro dia num poema, isso me encanta e basta.



Márcia Maia

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Inferno astral ou da falta que um Nike faz


 jose antonio hernandés©












Derrapou e caiu. Um segundo de descuido, e estava no chão. A droga do tênis novo, todo cheio de riquififfis, salamaleques, amortecedores de gel e silicone, não era à prova de chuva. Menos ainda de calçada esburacada, folhas caídas e lodo. Deveria vir com um aviso: impróprio para uso no outono/inverno. E agora, a perna doía, a calça cheia de lama, por pouco não se rasgara, a mão arranhada, sangrando, a sombrinha quebrada. E três prestações da porra do tênis ainda por pagar.



Márcia Maia


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Bucólica



Da cor de caramelo eram os seus sapatos. E em nada combinavam com a calça jeans escura e a camisa leve de algodão clarinho que usava. Você sorria como se nada importasse além do centro antigo da cidade, dos casarões pintados de cor-de-rosa, azul ou amarelo-claro, das escadas de madeira escura que se bifurcavam, dos lustres de cristal, da tarde. E me contava, olhos brilhando, histórias dessa terra que é a sua.
Pouco adiante, onde o jasmineiro floria em grená, a Poesia nos aguardava em sua praça, sob o olhar complacente do piano carcomido que a escada sustentava, e a benção do herói cujo sangue, há tanto derramado, tinge ainda o chão dessa cidade, não de rubro, mas de cobre, que em tudo se assemelha à cor de caramelo que colore seus sapatos.



Márcia Maia

terça-feira, 30 de março de 2010

A lua por epígrafe


Entardecia. A lua — a mesma lua — de novo se mostrava ao céu daquela rua. A mesma rua. E eu pensava na história. Nas histórias. Na que ali vivera. Na que ali vivia agora. E não percebia que era a vida uma mesma e única história. Que ali se repetia. Noutro tempo. Travestida de outra história. Tendo a lua por epígrafe. E o mesmo travo agridoce reservado ao brinde final.



Márcia Maia