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terça-feira, 10 de setembro de 2013

como tatuagem


de onzes de setembro faz-se a vida
a fogo e sangue em círculos se inscreve
setenta e três dois mil e um ou num
cinqüenta e cinco anônimo e longínquo
que importa quem relembra quem renega

a dor sabe de cor em quem doeu




Márcia Maia




sábado, 7 de janeiro de 2012

o rio


O Rio Capibaribe, no Recife de antigamente
















o sol brinca de potengi nas águas do capibaribe
e brinca de capibaribe se porventura estou lá

o sol sabe de tardes de margens de correnteza e mangue
sabe de igrejas e fortes à beira-rio-quase-mar

o rio por sua vez sabe de água caranguejo e gente
do que se diz do que se vê de quase tudo que se sente

o rio sabe de ser porto e caminho mortalha e berço
acalanto e incelença — todas as cantigas — e mais

sabe ser fêmea bem-amada pelo sol e oferecida
ao rio macho à luz da lua para de novo a amar

e enquanto o sol sonha-se rio e liquefaz-se de poente
o rio mais quer-se rio não sol-no-rio-quase-mar

e brinca de ser potengi nas águas do capibaribe
e insiste em ser capibaribe se porventura estou lá



Márcia Maia


sexta-feira, 17 de junho de 2011

michael jennifert urek©













o tempo desdobrado
não é tempo
mesmo quando diz-se aniversário
é cheiro de tempo
lembrança de tempo
origami esquecido mofando atrás
das portas do armário



Márcia Maia


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

joana


eli miguel©














salgou-se o mel dos olhos de joana
e o fogo dos cabelos fez-se mar
a pele enluarou-se de sargaço
em noite de tormenta e vendaval

diziam que ela era americana
diziam que era louca em se arriscar
vencer de peito aberto aquele espaço
em noite de tormenta e vendaval

o espaço digo agora era terra
lagoa mangue rio canavial
os pés descalços cobra coral ferra

a dor escorre junto com o veneno
(mortalha lhe serão mar e sereno)
em noite de tormenta e vendaval



Márcia Maia


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

novembro 10 7:40


calor de meio-dia às sete e meia
torpor de noite e meia na manhã

o mar se faz deserto liquefeito
pretérito imperfeito de sertão

o rio em água morna se espreguiça
atiça como fogo de braseiro

o cheiro de suor e esse mormaço
(o traço mais constante do verão)

azul o sol explode na fruteira
e inscreve na cadeira essa manhã



Márcia Maia


sábado, 11 de setembro de 2010

como tatuagem



de onzes de setembro faz-se a vida
a fogo e sangue em círculos se inscreve
setenta e três dois mil e um ou num
cinqüenta e cinco anônimo e longínquo
que importa quem relembra quem renega

a dor sabe de cor em quem doeu



Márcia Maia


sábado, 28 de agosto de 2010

anteflorir



porque as tardes azulecem
há um breve despertar das
cicatrizes —
flores bizarras em jardins
de pele e sangue —
se antecipando à primavera
confirmando que em agosto
é sempre inverno
mesmo quando travestido de verão



Márcia Maia


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

quase um largo

kimimasa mayama ©















às oito e quarenta e um
a luz se fez
e cento e quarenta mil
num instante se apagaram

dois dias depois
repetiu-se o macabro espetáculo

(

                                             
                                              
                                               )


hoje o mundo pouco
lembra hiroshima

e há muito esqueceu de nagasaki



Márcia Maia

sábado, 17 de julho de 2010

epigrama


em cada verso de amor
há um naufrágio iminente
um tsunami descrente
seu imanente furor

e um campo de margaridas

o resto é tolice
(artifício de escrita)
acácia desflorida no verão



Márcia Maia