quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Heresia


Desde criança ria ao rezar o Pai Nosso. Quando chegava ao não nos deixeis cair em tentação, desatava a rir. De nada adiantaram os pedidos da mãe. Tampouco os da avó. Menos ainda os do pároco que, cansado daquela heresia, expulsou-a da igreja quando desatou a rir em pleno dia da primeira comunhão. Para vergonha eterna da família. Exceto do pai. O pai nada dizia. Mas ria baixinho pra mãe não perceber. E sempre pulava aquela parte nas raras vezes em que rezava.
Assim, de riso em riso, cresceu sem nunca se propor a não cair em tentação. Caía sempre. E era feliz.
Pensava nisso agora, ao ouvir o recado dele na secretária eletrônica, marcando para encontrá-la no dia seguinte. Três e meia da tarde? Que hora horrível, pensou, já imaginando a desculpa que daria para sair cedo do trabalho. Médico? Dentista? Doença na família? Não, já tinha adoecido todo mundo, não dava mais. Quem sabe uma enxaqueca? Ou uma terrível cólica menstrual? Riu. Depois decidiria. O certo é que por nada nesse mundo, deixaria de encontrá-lo. Cairia em tentação uma vez mais. E, mais uma vez, seria feliz. Amanhã, como ontem e para sempre. Amém.



Márcia Maia


6 comentários:

Ricardo Mainieri disse...

Uma tênue linha de continuidade dá a este miniconto um sabor especial.
O sabor da transgressão, do inconformismo com os ritos sociais e culturais que nos aprisionam.
Como sempre, em teu estilo enxuto, consegues obter um belo resultado final.

Beijão.

Ricardo Mainieri

Ricardo Mann disse...

Espetacular! Ja disse tudo...

Creito disse...

miiil!

L. Rafael Nolli disse...

Márcia, belo conto. Gostei demais dessas figuras, personagens cativantes. E tudo construído em tão poucas linhas! Muito bom!
Bjs

dade amorim disse...

Sempre um texto gostoso de ler. Marca registrada ;)

Beijo

wind disse...

Delicioso:)
Beijos