segunda-feira, 18 de novembro de 2013

alternativa


um galo
[o mesmo que não tece a manhã]
canta alto no calor da tarde

[são três e meia]

na tentativa de
                     mudando o parâmetro
[para póstumo espanto do poeta João]
súbito


tecê-la



Márcia Maia©


terça-feira, 10 de setembro de 2013

como tatuagem


de onzes de setembro faz-se a vida
a fogo e sangue em círculos se inscreve
setenta e três dois mil e um ou num
cinqüenta e cinco anônimo e longínquo
que importa quem relembra quem renega

a dor sabe de cor em quem doeu




Márcia Maia




segunda-feira, 22 de abril de 2013

quase um poema de abril



o cheiro de terra molhada
desata as trancas da memória
a noite entorna-se



Márcia Maia




sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Verde vida en la ventana


                                    para Gerusa


Quando voltou, a esperança ainda estava lá. Pousada tranquilamente sobre o computador. Nem ligou para a janela que, deliberadamente, deixara aberta na esperança de não aprisioná-la. Porque uma esperança prisioneira decerto é pior que esperança alguma. Ou não. Visto que nesse exato momento, abria as asas e voava até a borda da janela. Para em seguida, pousar na tela do monitor como a espreitar o que, sobre ela, ele escrevia.



Márcia Maia


domingo, 11 de novembro de 2012

novembro 11 13:40


dois navios


um
a metro e meio
do horizonte

outro
a menos metro e meio
do mesmo horizonte

a terra é redonda

[nenhuma surpresa
diria
eratóstenes

(aquele do crivo)

provei-o por a+b
três séculos antes de cristo]



Márcia Maia


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

em noite de bruxas


sou faca 
de aço cristal ou prata 
navalha de fogo 
sou morte sou grito 
sou gozo 

em noite de bruxas 
sou apenas eu 

(e isso me encanta e basta)



Márcia Maia 


domingo, 21 de outubro de 2012

Sonhando com Cavaleiros


antónio manuel pinto da silva©














Sonhava com cavaleiros. Andantes. Armaduras de prata ao luar. Galantes. E limpos. Essencialmente limpos. Olhos negros. Pele morena, de preferência. Não era muito chegada a louros e olhos azuis. E aí começava o problema de seus sonhos. A falta de coerência. Onde, na corte do rei Arthur ou na Bretanha de Ivanhoé, caberiam cavaleiros morenos? Longos cabelos negros. Nem tão lisos assim. Barbas cerradas. Grandes e profundos olhos negros. Mãos de longos dedos. Fortes. E, ainda por cima, limpos! Estes povoavam sua imaginação e a deixavam à beira de um ataque de nervos. De tesão. Mas, com essa descrição, jamais seriam seus cavaleiros, os heróis. Estavam mais para bandidos, infiéis, ladrões. O que poderia ser facilmente constatado em qualquer filme de quinta ou numa mera revista em quadrinhos. E ela, a princesa encastelada, como poderia amá-los? Passava tardes inteiras sonhando em busca de uma solução. E nada encontrava que se adequasse ao espírito dos romances e filmes dos tempos de adolescente. Tentava se imaginar nos braços de um deus louro, barba fininha, cílios dourados emoldurando olhos azuis, límpidos como a água do mar. Ou o céu da tarde. Tão bravo e gentil. E babaca, pensava. Não lhe inspirava em nada.O menor estremecimento. A mais remota emoção. Desistiu. Decidiu subverter o enredo. E passou a dedicar-se, com afinco, às aventuras com os, digamos, forasteiros. Nos seus sonhos, era raptada e o mais alto, mais moreno, de maiores e mais profundos olhos negros, barba mais cerrada, caía de paixão por ela. Imaginava tórridas cenas, mais para Nove e Meia Semanas de Amor que para Camelot. E era feliz. Atrapalhada e deliciosamente feliz, na mais louca e incongruente aventura. Onde a princesa morria de tesão pelo galã, que não era nem louro, nem herói. E onde os louros cavaleiros, como bem lhes cabia, lutavam até a morte pra libertá-la. Mas, para a glória eterna de seus nomes, convenientemente, morriam. 



 Márcia Maia



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

agosto 31 18:30




nem azul
imensa e cor de madrepérola
                                a lua
              despida de amores
perdoa o lugar-comum
                             e baila
além da minha janela



Márcia Maia



sábado, 18 de agosto de 2012

Pequenas obscenidades


Pensava sempre nele nessa hora. A hora em que, casquinha de sorvete à mão, lambia lenta e delicadamente as bolas. Deliciando-se em dobro. A relembrar outros jogos de língua. Em tardes distantes. E por vir.



Márcia Maia


domingo, 12 de agosto de 2012























De meu pai herdei a cor da pele
e um leve inclinar da cabeça
para a direita
nas fotografias.
Um jeito intenso de viver
amar e dar presentes.
Uma afabilidade cúmplice
no trato com as pessoas
além da profissão
exercida como sacerdócio.
O gostar de almôndegas
cozido e guisado
a mania de cortar toda a carne
no prato
antes de comê-la
e o incômodo de acordar
às quatro e meia
quando poderia dormir
até às dez.



Márcia Maia


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sinfonia de agosto


Toshiuky Aizawa©
















Meio à paz da manhã de verão, o clarão maior que o sol. O ruído. O horror. Acordes de medo. De dor. De escárnio. De morte. Desde aquele dia. Até hoje. E para sempre.



Márcia Maia


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

agosto


clara claridade
claríssima
clarente
clara lente a perscrutar
os corpos brancos de inverno
e as almas

claro vento
ventania
canta claro catavento
canta vento a despertar
frutos e cores
cheiros e flores
sabores
amores?
a gosto
:
agosto



Márcia Maia


domingo, 29 de julho de 2012

análise


de flor e faca
de faca e flor

o ser que sou
e o que fui e se perdeu
num vão qualquer de algum
caminho
que em sendo verso
ao invés de afago ou gesto
não passa de artifício
mero jogo de palavras
inúteis inábeis inertes
vazias

como flor e faca
como faca e flor



Márcia Maia


terça-feira, 24 de julho de 2012

julho 24 28º andar 17:50




negras
as nuvens
rolam sobre milhares
de pontos coloridos e brilhantes

como véu de viúva envolvendo vagalumes


Márcia Maia