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domingo, 21 de outubro de 2012

Sonhando com Cavaleiros


antónio manuel pinto da silva©














Sonhava com cavaleiros. Andantes. Armaduras de prata ao luar. Galantes. E limpos. Essencialmente limpos. Olhos negros. Pele morena, de preferência. Não era muito chegada a louros e olhos azuis. E aí começava o problema de seus sonhos. A falta de coerência. Onde, na corte do rei Arthur ou na Bretanha de Ivanhoé, caberiam cavaleiros morenos? Longos cabelos negros. Nem tão lisos assim. Barbas cerradas. Grandes e profundos olhos negros. Mãos de longos dedos. Fortes. E, ainda por cima, limpos! Estes povoavam sua imaginação e a deixavam à beira de um ataque de nervos. De tesão. Mas, com essa descrição, jamais seriam seus cavaleiros, os heróis. Estavam mais para bandidos, infiéis, ladrões. O que poderia ser facilmente constatado em qualquer filme de quinta ou numa mera revista em quadrinhos. E ela, a princesa encastelada, como poderia amá-los? Passava tardes inteiras sonhando em busca de uma solução. E nada encontrava que se adequasse ao espírito dos romances e filmes dos tempos de adolescente. Tentava se imaginar nos braços de um deus louro, barba fininha, cílios dourados emoldurando olhos azuis, límpidos como a água do mar. Ou o céu da tarde. Tão bravo e gentil. E babaca, pensava. Não lhe inspirava em nada.O menor estremecimento. A mais remota emoção. Desistiu. Decidiu subverter o enredo. E passou a dedicar-se, com afinco, às aventuras com os, digamos, forasteiros. Nos seus sonhos, era raptada e o mais alto, mais moreno, de maiores e mais profundos olhos negros, barba mais cerrada, caía de paixão por ela. Imaginava tórridas cenas, mais para Nove e Meia Semanas de Amor que para Camelot. E era feliz. Atrapalhada e deliciosamente feliz, na mais louca e incongruente aventura. Onde a princesa morria de tesão pelo galã, que não era nem louro, nem herói. E onde os louros cavaleiros, como bem lhes cabia, lutavam até a morte pra libertá-la. Mas, para a glória eterna de seus nomes, convenientemente, morriam. 



 Márcia Maia



domingo, 25 de setembro de 2011

Fim de Linha


Esperara hora e meia e quando o maldito do ônibus passou, não parou. Mais meia hora, um novo se aproxima, reduz a velocidade e segue adiante, sem parar. Tem impressão de ter visto o motorista observá-la por um instante, antes de tornar a acelerar, mas não tem certeza.
Começa a chover. Chuva de vento, como se já fosse agosto: não adianta tentar se abrigar. Não há mais ninguém na rua, àquela hora. Só ela, a chuva e o ônibus que tarda a passar. Quando, uns quarenta minutos depois, avista mais um se aproximando, toma uma decisão radical e se põe, em pé, no meio da rua, encharcada, acenando com as duas mãos. Das duas, uma: ou o ônibus pára ou a atropela, porque, depois de tantas horas à espera, está disposta a tudo e dali não arredará o pé. E mais uma vez o ônibus passa. Como uma rajada de vento. Morno. Sobre ela. Sem parar.
Exausta, senta-se à beira da calçada. A chuva parou. A noite já quase finda. E em sua mente uma pergunta, como um eco, se repete: terá realmente morrido quando o botijão explodiu na cozinha do motel onde trabalha ou será apenas a continuação do pesadelo onde sonhou a tal explosão? E, por não saber a resposta, permanece à espera do próximo ônibus. Talvez apareça alguém para esperar com ela. Ou, quem sabe, com um pouco de sorte, da próxima vez, haja alguém recém-desencarnado, como ela, à direção.



Márcia Maia


sábado, 2 de outubro de 2010

O Passageiro da Chuva


Desligou a televisão. A chuva aumentara. Não fora uma boa idéia rever aquele filme numa noite como aquela. Le Passager de la Pluie. Mas não resistira ao apelo das lembranças de quando o vira a primeira vez. E à música que adorava, além da cena final, sempre irresistível. Checou todas as janelas. E deixou-se ficar um pouco mais olhando a chuva.
O ruído do ônibus parando a despertou. E um arrepio lhe percorreu o dorso e a nuca. De camisola, pés descalços, verificou novamente as janelas. Nunca vira uma casa com tantas janelas como a sua, pensou esboçando um sorriso. Checou as portas. Fechadas. Devia ser culpa do filme aquela inquietude, quase medo, que sentia. Já na escada, percebeu que esquecera a luz acesa na cozinha. Desceu. Preferia deixar acesas as luzes da varanda e do corredor.
Foi então que o viu. Alto, capa de gabardine caqui entreaberta, camisa levemente azul sobre a calça jeans escura. Olhos imensos, brilhantes e negros como os de um falcão, a despeito de ser quase ruivo. Quis correr mas não conseguiu mover as pernas. Imobilizada entre o pânico e o fascínio.
Ele não a estuprou, como no filme. Ao vê-la, pegou uma faca em cima do balcão, e olhando-a nos olhos, enfiou-a até o cabo, dois centímetros à esquerda do externo, à altura exata do coração. Nada disse. Ela, tampouco, gritou. Sequer lembrou do filme. Viu apenas a chuva escorrendo à janela. E teve a impressão de ouvir uma canção francesa antiga meio ao ruído de uma vidraça se estilhaçando, pouco antes de um azul escuro e imenso toldar-lhe os olhos. Pouco antes de deixar partir a vida, manchando de escarlate o mármore imaculadamente branco do piso da cozinha.



Márcia Maia


domingo, 8 de agosto de 2010

A Visita





















Depois de subornar três serafins, todo um batalhão de anjos, dois arcanjos e um membro da alta hierarquia celeste, cujo nome, por razões óbvias, não pode ser revelado, finalmente ultrapassou os portões. Que portões? Do céu, elísio, paraíso, nirvana, como quiserem chamar. Que dá tudo no mesmo.
Estranhou no início a falta de vigilância. A sensação de liberdade, mesmo parcial, foi como um vento novo, uma brisa. Tinha apenas quatro horas. Depois de tantos anos, quatro horas! Mas, trato é trato. E este lhe custara caro.
Voltara para ver os filhos. Crescidos já. Um presente que se dava nesse dia. Dos pais. Encontrou-os reunidos em torno da mesa do jantar. Seis. Os filhos dos seus filhos. Quatorze. Seus netos. E as filhas do filho da sua filha: suas bisnetas, tão pequenas, ainda.
Ouviu conversas e risos. Pouco entendeu. Perscrutou suas faces. Os olhos, as bocas, as rugas. Os fios embranquecidos nos cabelos. Os risos. As vozes. Os gestos. Procurou vislumbrar-lhes a alma. Os traços de dor e alegria. Os medos. Os sonhos.
Depois, concentrou-se nos netos. Buscando em cada um a imagem que tinha de seus pais e mães pequenos, crianças ainda. Como eram quando partira. A contragosto, partira, evidentemente.
Súbito, deu-se conta de que, agora, seus filhos estavam, todos, mais velhos do que ele, o pai. Passara o tempo para eles. E se esgotava o seu. Hora de retornar.
Beijou cada um, filhos, netos e bisnetas, sem que o percebessem. Mas, cada um, de repente, sentiu vontade de falar do pai. Que partira há tanto. Do avô. Que não conhecera. Como um lampejo de saudade.
Terminado o jantar, despediram-se rindo e partiram. Ele, inclusive. Antes que para sempre lhe fossem fechados os portões. Do elísio, céu, nirvana, paraíso. O nome que lhe queiram dar.



Márcia Maia