Mostrando postagens com marcador em queda livre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador em queda livre. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 29 de junho de 2011
roteiro adaptado
da janela
te espio a espiar-me
te espiar
ir e vir de olhares e
espelhos
(potência de lentes)
teia que nos ata.
por um instante
distraio-me
e tu
(abandonada a lente)
de mim te aproximas
sorrateiro
rasgando teia e roteiro
e me matas
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
terça-feira, 12 de abril de 2011
inventário
não sei de aranhas
nem de fios
sei de teias
não sei de pássaros
tampouco de borboletas
sei de vôos
sei de vertigens e abismos
de asas partidas
de mãos vazias de gestos
(da ausência de versos)
e sei também de dor e desamor
mas isso fica para
outro poema
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
terça-feira, 8 de março de 2011
lição de geometria
as solidões caminham lado a lado
no parque da jaqueira
acertam o passo
seguem-se
raramente se ultrapassam
contemplam-se traçando círculos
de silêncio a cada passo
círculos que se rompem quando
findo o exercício
retornam as solidões às suas casas
— em separado
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
sábado, 4 de dezembro de 2010
o poema que não fiz
madrugada
ainda não amanheceu
e eu desperta aqui em busca de um poema
de um poema que adivinho mas não vejo
que se esconde sob a aurora
sob as letras do teclado
sob os dedos
e que me impede tenazmente
de dormir
o dia chega
cantam os pássaros na algaroba no pinheiro
voam ainda (meio-tontos) os morcegos
sem saber aonde ir
na rua
só cachorros e o vigia
na casa
além de mim camas vazias
e um tempo que passou e eu não vi
vivi é certo
mas imersa em tal redemoinho
que mal percebi sua passagem.
e agora
(que é hoje)
nem manhã nem madrugada detenho-me
nesse instante-encruzilhada
à cata do poema que não veio
e que não fiz
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
terça-feira, 2 de novembro de 2010
os mortos
não há mais mortos no dia dos
mortos
mesmo as molduras na parede
mostram-se vazias
(a manhã resplende
os pássaros cantam
a menina chora sozinha no jardim)
e os mortos todos os meus mortos
não passam de lembranças
leves como a brisa
que brinca em meu cabelo todo dia
de manhã
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
prisma
rené magritte©
à janela da cozinha derrama-se
o pôr-do-sol e atinge-me em cheio
a mim que só buscava beber um copo d'água
e ali permaneço imobilizada em tons de
carmim e azul-turquesa
como se fôramos juntos o copo o céu a cozinha
e eu um grande bloco colorido de cristal
prestes a partir-se tão logo se encerre
à janela mais este pôr-do-sol
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
sábado, 23 de outubro de 2010
sequência
toco a teia de ausência nesta tarde
que semelha mais outono
que verão
e o silêncio se me gruda à pele e arde
qual lamento de sem dono
gato ou cão
colhendo fado e infância em cada parte
deste réquiem de abandono
sem perdão
que ora entôo
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
sábado, 9 de outubro de 2010
de insônia
madrugada de distâncias infinitas
que escorrem liquefeitas à janela
e cintilam no asfalto rua afora
entre cães adormecidos e mendigos
liquefazem-se as distâncias não o tempo
que este escorre indiferente à madrugada
e branqueia o cabelo enruga a face
num rosário de alegrias e desditas
onde a vida embora vida não é bela
e se bela é de ontem não de agora
que ora alterna-se entre leitos e jazigos
e onde amor é sempre tédio ou contratempo
corpo aqui corpo acolá numa enxurrada
de vazio e solidão por desenlace
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
terça-feira, 7 de setembro de 2010
uma canção na manhã
há uma canção nessa manhã azul
de antigamente
(a canção não a manhã)
e eu oscilo
hesito entre manter-me inteira
no presente
ou escorregar leve impercebida e
sorrateiramente
ao quarto fechado
onde dormitam em segurança todos os
sentires inacabados
há uma manhã nessa canção
de antigamente
(a manhã não a canção)
e já nem sei o que é passado
o que é presente
mas vem em meu auxílio
o telefone
e embora aveludada e rouca
não é tua
a voz que me procura
há uma canção nessa manhã
nem tão azul
(tampouco de antigamente)
apenas uma canção
e nada mais
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
terça-feira, 29 de junho de 2010
prestidigitação
sou a que se perdeu
a ausente
e embora esteja quase
sempre aqui
aparentemente presente
não sou eu a que me vêem
— tu e toda essa gente —
mas o esboço
a sombra
o rastro
ou talvez apenas o reflexo
nas águas turvas de junho
da que fui
quando o inverno era
ainda
uma improvável e longínqua
possibilidade
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
sábado, 5 de junho de 2010
crepuscular
brusco e róseo
no asfalto molhado — o grito
(sangue salpicado no vestido
e um buquê desfolhado na lata do lixo)
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
quarta-feira, 19 de maio de 2010
tinto
tarde:
célere escorre
o sangue
vivo rio vazante
da mão esquerda
às margens
bordadas do lençol
e
gota
a
gota
até o tapete persa
raríssimo
tingindo-o de rubra vida
passada
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
quarta-feira, 5 de maio de 2010
de silêncios
silêncio
de lua cor-de-romã madura
à janela
de canto
antigo cantado em francês ou
espanhol
de vento
brincando nos galhos do ipê e
do pinheiro
de gente
em alvoroço a caminho do
futebol
silêncio
de abismos escondidos nas pregas
dos vestidos
de mãos
acarinhando do amado o corpo
nu e ausente
de noite
fria que se alonga e se escusa à
madrugada
de nada
além de mim sentada aqui só
como sempre
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
domingo, 25 de abril de 2010
poeminha cínico
mesmo o mais cinzento dos domingos
diz-se azul quando amanhece
ainda que em meio a terremotos
maremotos tempestades
mesmo o amor mais corrosivo sabe
a mel quando engatinha
ainda que respingue sangue e fel
a cada passo
mais importa o prometido que o
que encerra
à luz dos dias a crua e cínica
e vã realidade
sendo assim seguem sempre azuis
e doces os amores e os domingos
a propaganda é a alma do negócio
bem se sabe
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
quarta-feira, 7 de abril de 2010
persuasão
as palavras me amanhecem
estrangeiras
sobre a cama escondidas
nos lençóis
e me amarram e me vendam
e me amordaçam
traiçoeiras
para que eu nunca mais ouse
escrever versos a ti
Márcia Maia
Marcadores:
em queda livre
Assinar:
Postagens (Atom)
