Mostrando postagens com marcador cotidiana e virtual geometria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cotidiana e virtual geometria. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de abril de 2011

quase um fractal


seja o tempo um segundo de segundo
e o segundo seguinte nada mais

baste ao tempo do tempo o de um segundo
pra ser noutro segundo nada mais

seja o tempo o infinito de um segundo
sem que seja um segundo nada mais
pois se nulo é o tempo de um segundo
no segundo um segundo é nada mais

se o tecido do tempo é o segundo
esgarçado o segundo é nada mais



Márcia Maia


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

os degraus


sigo em frente — um a um desço os degraus
(a despeito dos avisos do poeta)
se me espera um sonho novo ou pesadelo
saberei quando chegar onde me levam

vejo vultos se achegando a essa escada
e lanternas que parecem flutuar
ouço vozes que se alternam em gemidos
a bailar qual acalanto em meus ouvidos

e então vejo frente a mim a me fitar
minhas faces mais antigas e (encantada)
em seus olhos que são meus e me relevam

eu mergulho corpo e alma —nua em pelo
a seguir me faço verso e raio e seta
— quintaneio em sonhos bons os dias maus


Márcia Maia


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

da proximidade tortuosa de dezembro


esse mormaço sabe a fevereiro
na claridade vê-se um quê de março

tão longe vai abril igual vai maio
de junho o quase-frio hoje é passado

o que dizer de agosto então e julho
a anunciar setembro em tons de azul

outubro é tão recente e já novembro
se esvai em dias claros de janeiro

quando o torpor do meu viver disfarço
cerro janelas nem às ruas saio
e vejo a mim qual ser mal-acabado
de frágil vidro e carne um podre entulho
mistura de canário e urubu

sem calendário afirmo — é dezembro



Márcia Maia


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

improcedente


quase só nessa quinta de manhã
busco abrigo entre as rimas do soneto
apesar de saber-me aqui perdida
qual romã a pender de abacateiro

meio-morta de cansaço do afã
de uma noite em plantão inda cometo
um pecado ao tentar driblar a vida
procurando uma agulha no palheiro

que seria uma rima bela e rara
pra rimar desencanto e solidão
com amor essa coisa evanescente

que atormenta e vicia feito tara
que se tem mas se nega sempre em vão
— onde jaz essa rima improcedente



Márcia Maia


quinta-feira, 15 de julho de 2010

cantiga


e se eu disser que não sei o que sinto
te digo e minto pois sei que guardara
a manhã clara nas mãos sob as saias
— ris ou me vaias se assim te disser

e se eu disser que é tal qual vinho tinto
digo e não minto sei que maculara
a manhã clara nos bosques de faias
— ris ou me vaias se assim te disser

e se eu disser que inteiro és-me indistinto
te digo e minto pois te procurara
na manhã clara dentre as samambaias

(de alvas cambraias fiz-te veste e cinto)
se em tuas praias meu barco atracara
— ris ou me vaias se assim te disser



Márcia Maia


sexta-feira, 14 de maio de 2010

longe é um lugar que ainda existe


a habitual e inevitável discrepância
do tempo-espaço presumido como quântico
assim sentido assim vivido como dogma
imiscuindo às equações do dia-a-dia
cotidiana e virtual geografia
(e onde encontrar perfeita rima para dogma?)
que se desliza ardente e doce como cântico
e faz o aqui sentir-se ali sem mais distância
até que um dia faz-se urgente e essencial
estar-se perto — e a emoção rompe a cortina
mas há o espaço e há o tempo de permeio
(newtoniano e pragmático floreio)
e a teia quântica esgarçada se arruína
na inevitável discrepância habitual



Márcia Maia

sexta-feira, 30 de abril de 2010

tango


um tango na vitrola um vermute

à meia-luz na sala
promessa de pecado e de desfrute
mas inda se cala

aberto até acima do joelho
revela-se o vestido
decote debruado de vermelho
como prometido

e a mão conduz a mão até a dança
desliza no cabelo
daí ao colo à boca ao corpo e avança
mais — sem atropelo

e agora o que era dança beijo seja
e o que se oferecia
tomado e repartido se anteveja
como apetecia

(...)

manhã terno e vestido em desalinho
a um canto do sofá
um corpo noutro corpo faz seu ninho
— o que mais falar?



Márcia Maia

segunda-feira, 5 de abril de 2010

trama

clarence john laughlin©
















invento a dor que pressinto
e nada sinto — acrescento
noutro momento desminto
minto ser dor meu tormento
dor que consinto é-me alento
falso alento não consinto
mais dói se em tormento minto
desminto após um momento
dor acrescento à que sinto
e à que pressinto se invento



Márcia Maia