quinta-feira, 17 de março de 2011

Bobagens


Eu te amo, sabia? Ela riu. Sabia. E sabia também que não era verdade. É verdade,  sim, pode acreditar. Mas eu não disse nada, respondeu ainda rindo. Mas pensou, ele disse. Um leve silêncio se fez em ambos os lados da linha. Quebrado apenas pelo sinal de que o tempo da ligação se esgotava e pela voz dela, no último instante dizendo: também amo você. Pode acreditar.



Márcia Maia


segunda-feira, 14 de março de 2011

pedigree

flávio machado©














não há rosas por trás dos muros cor-de-rosa
da casa da poesia

mas touceiras de espinheiros
(entremeadas de marias-sem-vergonha)
violetas orquídeas
borboletas formigas
sapos cigarras grilos
e vez por outra um bem-te-vi

                                        mas não há rosas
                                        (nenhuma rosa)


a poesia (quase sempre) é mais sutil



Márcia Maia

quinta-feira, 10 de março de 2011

inquietudes


é como se uma sala em outra sala
em uma a mais e em outra ainda

dentro eu

nenhuma voz pode alcançar-me
mão alguma

tampouco tu

que te perdeste há tanto
em teus próprios labirintos

e sequer a ti te encontraste



Márcia Maia


terça-feira, 8 de março de 2011

lição de geometria


as solidões caminham lado a lado
no parque da jaqueira
acertam o passo
seguem-se
raramente se ultrapassam
contemplam-se traçando círculos
de silêncio a cada passo
círculos que se rompem quando
findo o exercício
retornam as solidões às suas casas
— em separado



Márcia Maia


domingo, 27 de fevereiro de 2011

Íntimo


alan klug©




















O maço vazio de cigarros. A xícara de café, ainda a meio. O livro aberto na página oitenta e três. A toalha úmida esquecida na cadeira. A quase-ausência. E o perfume imiscuído nos lençóis.



Márcia Maia


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Com destino


henry cartier-bresson©


Bala sabe que peito fere. Faca, também.
Dor, não. Mente.



Márcia Maia


sábado, 19 de fevereiro de 2011

sursis


emudeceram-me a voz e os dedos
emudeceu-me o metafórico
coração

sumiram-me os poemas

deixaram-me o olhar turvo
o corpo cansado
a vida vazia

sem explicação

ter-me-á abandonado
definitivamente
a Poesia



Márcia Maia


sábado, 12 de fevereiro de 2011

sujeito a chuvas


em cinza e vento
espreguiça-se a manhã
e já vai a meio

chove
nem parece fevereiro

entre livros e discos
me aconchego

e sonho sonhos de junho
se adormeço



Márcia Maia


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Porque hoje, 9 de frevereiro, é o dia do frevo:





quase um frevo-canção


era a noite era o pátio era o frevo
era o povo era o passo era a rua

a cerveja esfriava na mesa
e uma a uma as orquestras passavam

se uma história doída findava
(sem sequer revelar-se à tevê
cuja luz bem ali se acendia)
uma nova se já pressentia
(só a lua sabia o porquê)
quando spock edgar jazzeava

e as canções do coral evocavam
do passado o valor e a beleza

nos despiram depois noite e lua
e mais nada direi — não me atrevo



Márcia Maia





domingo, 6 de fevereiro de 2011

antropofagia


desencantada
sirvo-me em pedaços
à mesa dos desesperados



Márcia Maia


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

"En écoutant la pluie..."





1,65, ele disse. Altura é problema pra você? Não. É só uma questão de escolher sapato, do tamanho do salto, do alto dos seus 1,76, ela respondeu. Um pequeníssimo silêncio se seguiu. Ele às voltas com sua altura real. Ela a pensar que casal estranho formariam. Se bem que em tempos de Carla Bruni e Sarkozy, altura era o de menos. Nua, diante do espelho, ela riu. Então, amanhã às seis? ele perguntou. Amanhã às seis. Quando o amanhã chegou, chovia a cântaros. Às seis, tudo era enxurrada. E ela, que tanto desejara aquele encontro, esquecendo Carla Bruni e Sarkozy, ligou o computador, abriu um vinho e preferiu ficar em casa.




Márcia Maia


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

vigília


ainda um pouco de noite
na noite
o silêncio alternando-se
com a brisa
os passos apressados de
algum retardatário meio-
tonto de bebida ou de cansaço

talvez um cão
decerto um gato

e essa vontade antiga
vã e velada
de que se prolongue
para sempre a madrugada



Márcia Maia


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

urbano em demasia


um dia inteiro de britadeiras à porta
inferno aos ouvidos

reformam o sobrado da esquina
e por toda a vizinhança
soçobram versos canções risos
e mesmo o que a alguns resta de juízo

quem os haverá de resgatar findada a obra



Márcia Maia


domingo, 23 de janeiro de 2011

aquarela


silêncio de domingo sobre a tarde

um quê de luto — lilás e
violeta — sob as
pálpebras



Márcia Maia


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


visagem



tarsila do amaral©


a noite em ondas
mar se fazia
(mentia)

e a lua afogada
socorro à menina
(coitada)

sem ver que era
um cacto
pedia

enquanto o vento
olhando de cima
tudo via

e ria
e ria



Márcia Maia