sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
o avesso do desejo
lilya corneli©
te encontraria
no deserto
às dez e meia
tonto de luz
passos trôpegos sobre a areia movediça
eu te desnudaria
meio-dia
sol a pino
e te manteria prisioneiro
até que tingisse
a tua pele
o mais negro ou rubro tom
e cegasse os teus olhos o sol da tarde
te abandonaria então
nu e insone
meio às sombras
sem sonhos
onde te escondias das noites quentes
de antigos janeiros
por fim partiria
liberta
de ti
e do cárcere gelado
dos interditados verões do teu amor
desejo ao avesso
ainda pulsando em mim
Márcia Maia
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terça-feira, 4 de janeiro de 2011
os degraus
sigo em frente — um a um desço os degraus
(a despeito dos avisos do poeta)
se me espera um sonho novo ou pesadelo
saberei quando chegar onde me levam
vejo vultos se achegando a essa escada
e lanternas que parecem flutuar
ouço vozes que se alternam em gemidos
a bailar qual acalanto em meus ouvidos
e então vejo frente a mim a me fitar
minhas faces mais antigas e (encantada)
em seus olhos que são meus e me relevam
eu mergulho corpo e alma —nua em pelo
a seguir me faço verso e raio e seta
— quintaneio em sonhos bons os dias maus
Márcia Maia
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domingo, 2 de janeiro de 2011
adágio grave
ana cristina césar©
um corvo alça voo na manhã do ano-novo
ave negra sobre o céu azul
plana majestoso como se o tempo
em círculos desdobrasse
e pousa no telhado solitário
entre augúrio e agouro — istmo de asas
Márcia Maia
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sábado, 1 de janeiro de 2011
márcia maia©
o ano novo
derrama-se na sala
instala-se
— à vontade—
como um velho conhecido
Márcia Maia
que 2011 seja um ano feliz para cada um de vocês, meus amigos
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
dezembro 30 3:40
o ano quase a acabar
e eu sem conseguir dormir
não que entre uma coisa e outra
alguma relação exista
além da constatação do fato
puro e simples
e do adiantar-se das horas
em busca de um novo dia
repleto de obrigações
e de trabalho
Márcia Maia
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domingo, 26 de dezembro de 2010
Nem oráculo
A felicidade expressa em frases mínimas. A intimidade (falsamente) desnudada. Aqui e ali, uma ou outra ironia. O que é raro. Que bicho eu seria, que ator eu seria, que mito eu seria, que escritor eu seria, que pintor, escritor, cineasta e até que psicanalista eu seria? Quem realmente eu sou? Difícil saber. Tantas máscaras disponíveis. E a inquietação germinando em silêncio: meio a tantos seres/perfis bem resolvidos, belos e felizes, o único inquieto, só e triste serei eu? Responde-me facebook, como noutros tempos à rainha respondia o espelho, espelho meu.
Márcia Maia
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
quase um poema de natal
ali ali©
eu queria um natal sem luzes
sem sinos sem coroas sem presentes
sem festas de confraternização
onde se repete quase escandindo
(e à exaustão) a palavra so-li-da-ri-e-da-de
eu queria um natal mais solstício
que natal — um natal pagão —
um natal simples sem palco
onde a gente ousasse ser apenas gente
como a gente que a gente é nos outros dias
Márcia Maia
a todos vocês, meus amigos, um natal feliz.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
da proximidade tortuosa de dezembro
esse mormaço sabe a fevereiro
na claridade vê-se um quê de março
tão longe vai abril igual vai maio
de junho o quase-frio hoje é passado
o que dizer de agosto então e julho
a anunciar setembro em tons de azul
outubro é tão recente e já novembro
se esvai em dias claros de janeiro
quando o torpor do meu viver disfarço
cerro janelas nem às ruas saio
e vejo a mim qual ser mal-acabado
de frágil vidro e carne um podre entulho
mistura de canário e urubu
sem calendário afirmo — é dezembro
Márcia Maia
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Touché!
— Está doente de quê? ele perguntou.
— Da alma, respondeu.
— Impossível! Você não acredita em alma!
— Nem ela acredita em mim...
Márcia Maia
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
improcedente
quase só nessa quinta de manhã
busco abrigo entre as rimas do soneto
apesar de saber-me aqui perdida
qual romã a pender de abacateiro
meio-morta de cansaço do afã
de uma noite em plantão inda cometo
um pecado ao tentar driblar a vida
procurando uma agulha no palheiro
que seria uma rima bela e rara
pra rimar desencanto e solidão
com amor essa coisa evanescente
que atormenta e vicia feito tara
que se tem mas se nega sempre em vão
— onde jaz essa rima improcedente
Márcia Maia
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domingo, 12 de dezembro de 2010
poema à toa
escrevo papoula
como se semeasse a primeira
cor da primavera
escrevo deserto
como se me desafogasse
e partisse
o que sonho escrevo
(finjo)
não minto
Márcia Maia
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um tolo desejo de azul
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
joana
eli miguel©
salgou-se o mel dos olhos de joana
e o fogo dos cabelos fez-se mar
a pele enluarou-se de sargaço
em noite de tormenta e vendaval
diziam que ela era americana
diziam que era louca em se arriscar
vencer de peito aberto aquele espaço
em noite de tormenta e vendaval
o espaço digo agora era terra
lagoa mangue rio canavial
os pés descalços cobra coral ferra
a dor escorre junto com o veneno
(mortalha lhe serão mar e sereno)
em noite de tormenta e vendaval
Márcia Maia
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onde a minha rolleiflex
sábado, 4 de dezembro de 2010
o poema que não fiz
madrugada
ainda não amanheceu
e eu desperta aqui em busca de um poema
de um poema que adivinho mas não vejo
que se esconde sob a aurora
sob as letras do teclado
sob os dedos
e que me impede tenazmente
de dormir
o dia chega
cantam os pássaros na algaroba no pinheiro
voam ainda (meio-tontos) os morcegos
sem saber aonde ir
na rua
só cachorros e o vigia
na casa
além de mim camas vazias
e um tempo que passou e eu não vi
vivi é certo
mas imersa em tal redemoinho
que mal percebi sua passagem.
e agora
(que é hoje)
nem manhã nem madrugada detenho-me
nesse instante-encruzilhada
à cata do poema que não veio
e que não fiz
Márcia Maia
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em queda livre
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
via satélite
às quatro da tarde
a lua
(
em close
)
alta no céu
na tela da tv aparece
e diz-se luna
Márcia Maia
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sábado, 20 de novembro de 2010
A Carta
Agora que é de tarde e já é tarde para arrependimentos, pergunto-me em silêncio: quanto de mim se foi naquela tarde? Ônibus lotado, seis e meia, quase noite. Sem lua.
Onde estaria se tivesse cedido, largado casa e filhos e a mãe já velha, doente?
A mãe disse pra eu ir, é verdade. Que amor não se encontra de novo se deixa-se partir. Que amor corre sempre pra frente, como rio. E perde-se na vida.
Mas fiquei.
E agora, esta carta. Tanto tempo depois.
Caminho até a praça de onde partem os ônibus. (Pra mim, eles sempre partiram.) E dali ao cais, beira de mar bravio.
Novamente é tarde, seis e meia, quase noite. Sem lua. Azul denso. Maresia.
E ao surgir a primeira estrela, pequenina e minha, como tu dizias, deixo que a carta caia entre as ondas nas águas da noite-mar.
Sem abri-la.
Márcia Maia
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