sexta-feira, 24 de setembro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
nova mitologia
milton montenegro©
sem rumo
avesso a novos caminhos
perde-se em antigos labirintos
enquanto perfeitamente atualizado
liberto de complexos e mitos
o minotauro convida-me
para jantar
(e eu exausta de idas e vindas
aceito sem pestanejar)
Márcia Maia
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domingo, 19 de setembro de 2010
um dia esplêndido
nana canta chico na vitrola
ao som dos sinos de ventos
um cheiro de feijão e carne
assada escapa da cozinha
há bons livros nas estantes
flores sobre a mesa
e um gato imaginário
dormita preguiçoso no sofá
por que então me aflige
a mudez contumaz do telefone
meio ao cantar sem fim
dos passarinhos
Márcia Maia
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quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Manhã de vento e frio em Copacabana
Domingo de maio, azul e ventoso, mar agitado, em Copacabana. Manhãzinha, caminhava pela calçada, quase vazia. Sozinha. Pensando nas coisas da vida. Na vida como ela é. Na falta de Nélson Rodrigues, em silêncio, sentei ao lado de Drummond. De costas para a avenida, de frente para o imenso mar.
O mar sempre me fascina e apazigua, sem sentir, disse em voz alta. Ainda mais agora, com tantos amigos que vez em quando, do outro lado, à beira-dele se sentam e, com carinho, me buscam, me olham.
De onde você é? me perguntou, sorrindo, o poeta. E eu, me perguntei qual foi a última vez que vi uma estátua sorrir. Talvez tenha sido Adriano, ou Atena, não em Roma nem na Grécia, mas no Louvre, em Paris.
Do Recife, respondi.
— Poetisa, decerto. Ou prefere que eu diga poeta, como agora se usa dizer?
— Prefiro poetisa, sem ofender a língua, embora a palavra poeta soe muito mais bonita. Mas, a bem da verdade, sou médica.
Ele riu. E eu me aconcheguei um pouco mais, no casaco azul, de linha fina que mal me protege do frio.
— E os seus poemas, quem os escreve? A médica?
Touché, pensei, sem querer dar o braço a torcer.
— Com certeza. Pois que a médica e a poetisa não são uma única pessoa?
Touché, ele respondeu, como se me lesse o pensamento.
E ficamos os dois em silêncio. Ele olhando para a avenida e eu com os olhos molhados de tanto mar.
Que diabos estava fazendo ali, sozinha, num domingo de manhã, conversando com uma estátua? Tudo bem que era a estátua de um poeta, mas ainda assim, uma estátua. Será que a solidão se me chegara a tal ponto? E o vento soprou mais frio.
— Posso lhe perguntar uma coisa? A voz do poeta me roubou aos pensamentos.
— Certamente. O que quiser.
— Tem algum poema meu que toque fundo o seu coração, que esteja entre os seus preferidos?
Pronto! Era só o que me faltava! Por que tinha que parar e me sentar ao lado dele? Não podia ter seguido meu caminho, com um simples Bom dia, Drummond, ou ainda sem nada falar? Mas não, tinha que sentar, procurando sarna para me coçar. Tinha encontrado. E agora, que diria? Nunca fui muito fã da sua poesia, poucos poemas seus me comovem e não lembro de nenhum? Mas, se serve de consolo, é-me exatamente assim a poesia de Pessoa? Nem morta!
Ele me olhava, com um esboço de sorriso no olhar, por trás dos óculos, como se me adivinhasse o pensamento.
— Não lembra nenhum? Ou não gosta de nenhum?
Ele riu e eu pensei que detesto estátuas falantes.
— Não é que não goste, é que, sinceramente, conheço pouco a sua poesia. E assim, de supetão, só consigo lembrar dos mais comuns, de José e o da pedra, que não são meus preferidos e dos quais você já deve estar um pouco saturado.
Ele riu alto, como nunca pensei que riria. Aliás, nunca pensei que ele risse. Nem em vida.
— Boa saída pela tangente. Além de poetisa e médica, vai ver, você é geminiana.
Foi minha vez de rir. Alto e bom som.
— Sou, sim. Então...
— Então?
— Então, melhor deixar de bobagem e falar claro.
— Muito melhor, com certeza.
— É que realmente conheço pouco a sua poesia. Conheço muito melhor a do seu amigo Emílio Moura. Ela me fala mais perto, como se me lesse. Ao contrário da sua, que, desculpe a franqueza, quase sempre pouco me diz.
Ele me olhou com carinho, pôs a mão sobre a minha e disse:
— Não há o que desculpar. Eu sempre disse que Emílio era o maior poeta das Geraes. E a Poesia é assim, tem muitas vozes. Uma para cada poeta. Uma para cada leitor. E como dizia o Nélson, em quem você pensava quando aqui sentou, toda unanimidade é burra, não acha?
Que alívio!, pensei, rindo. E lembrei de uma conversa entre poetas bem vivos, que tivera uns dias antes. Onde se falara sobre a grandeza da Poesia. Sobre o seu ir além de picuinhas, além dos rótulos. Sobre o seu abrigar tantas formas e fórmulas, díspares, diversas entre si. Sem julgamento. Sem discriminação. Sobre ser o fazer poético fado e sina. Modo e necessidade de sobrevivência, como o respirar.
— Melhor você ir andando. Começa a chuviscar.
De novo, a sua voz me roubou aos pensamentos.
— Estátua não se importa com chuva, frio e vento, mas poetisa nordestina e viva pode adoecer, se resfriar. Mesmo sendo médica.
Ele tinha razão. A chuva engrossava. Beijei a sua mão e me levantei.
— Obrigada, Poeta. Tornou minha manhã menos só e mais feliz.
— Eu que agradeço. Há muito não conversava assim. Posso fazer um pedido?
— Mas é claro! O que quiser.
— Quando voltar para casa, numa noite qualquer, leia aquele meu livro branco, que seu amigo Oswaldo recomendou, você comprou e nunca o leu.
Nem sei se fiquei vermelha, ou se bege, empalideci, naquele frio. Sei que por dentro, sorri. Touché, again, pensei.
— Leio sim. Prometo. E quem sabe, venho aqui para conversamos sobre ele. Numa manhã de sol. Menos fria.
Márcia Maia
domingo, 12 de setembro de 2010
sem cinzel
folha imagem©
¿
se à pele a
antiga máscara adere
e
qual papel maché
ou poalha de pedra
logo se solidifica
o
que resta é disfarce
fantasia
ou
a vera face eternizada
em escultura
?
Márcia Maia
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sábado, 11 de setembro de 2010
como tatuagem
de onzes de setembro faz-se a vida
a fogo e sangue em círculos se inscreve
setenta e três dois mil e um ou num
cinqüenta e cinco anônimo e longínquo
que importa quem relembra quem renega
a dor sabe de cor em quem doeu
Márcia Maia
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onde a minha rolleiflex
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
a hora antiga
era como um amanhecer
e anoitecia
canteiros de estrelas e tulipas
amarelas meio ao cheiro novo dos jasmins
parecia primavera e era inverno
— era a felicidade —
e eu pensava que era só o seu início
Márcia Maia
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terça-feira, 7 de setembro de 2010
uma canção na manhã
há uma canção nessa manhã azul
de antigamente
(a canção não a manhã)
e eu oscilo
hesito entre manter-me inteira
no presente
ou escorregar leve impercebida e
sorrateiramente
ao quarto fechado
onde dormitam em segurança todos os
sentires inacabados
há uma manhã nessa canção
de antigamente
(a manhã não a canção)
e já nem sei o que é passado
o que é presente
mas vem em meu auxílio
o telefone
e embora aveludada e rouca
não é tua
a voz que me procura
há uma canção nessa manhã
nem tão azul
(tampouco de antigamente)
apenas uma canção
e nada mais
Márcia Maia
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em queda livre
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
tudo muito simples
o café recém-coado
o cheiro de pão quente
com manteiga
mais um gol de ronaldo na tv
e de quebra o céu claro ainda azul
seria uma tarde perfeita
não houvesse o morto na casa
ao lado
e o choro das crianças abafando
o cantar dos passarinhos
Márcia Maia
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um tolo desejo de azul
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
tear
não que seja a madrugada
preâmbulo do dia
tampouco réquiem ou epitáfio
de amor inacabado
mas um tempo que se arrasta
como se caminhassem
os ponteiros
ao avesso
não que sejas a razão da
minha insônia
ou que palpite o coração
ensandecido
a qualquer tênue recordação
de ti
(tenho-as tantas)
apenas fazes-me falta
e entornas essa tua ausência
imensamente calma
entre a cama e a janela
sobre o poema
onde desfio fio a fio a madrugada
Márcia Maia
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sábado, 28 de agosto de 2010
anteflorir
porque as tardes azulecem
há um breve despertar das
cicatrizes —
flores bizarras em jardins
de pele e sangue —
se antecipando à primavera
confirmando que em agosto
é sempre inverno
mesmo quando travestido de verão
Márcia Maia
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onde a minha rolleiflex
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Heresia
Desde criança ria ao rezar o Pai Nosso. Quando chegava ao não nos deixeis cair em tentação, desatava a rir. De nada adiantaram os pedidos da mãe. Tampouco os da avó. Menos ainda os do pároco que, cansado daquela heresia, expulsou-a da igreja quando desatou a rir em pleno dia da primeira comunhão. Para vergonha eterna da família. Exceto do pai. O pai nada dizia. Mas ria baixinho pra mãe não perceber. E sempre pulava aquela parte nas raras vezes em que rezava.
Assim, de riso em riso, cresceu sem nunca se propor a não cair em tentação. Caía sempre. E era feliz.
Pensava nisso agora, ao ouvir o recado dele na secretária eletrônica, marcando para encontrá-la no dia seguinte. Três e meia da tarde? Que hora horrível, pensou, já imaginando a desculpa que daria para sair cedo do trabalho. Médico? Dentista? Doença na família? Não, já tinha adoecido todo mundo, não dava mais. Quem sabe uma enxaqueca? Ou uma terrível cólica menstrual? Riu. Depois decidiria. O certo é que por nada nesse mundo, deixaria de encontrá-lo. Cairia em tentação uma vez mais. E, mais uma vez, seria feliz. Amanhã, como ontem e para sempre. Amém.
Márcia Maia
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domingo, 22 de agosto de 2010
sem backup
apertar um botão e apagar-te
em título e subtítulo
linha a linha
até que te restes pouco mais
que em nem escritas
entrelinhas
criptografadas em um arquivo
obscuro de um lugar
chamado cache
de onde hei deletar-te quando
o tempo nem pretérito
nem futuro
fizer-te memória imprestável de
um sentir envilecido
nem amor
nem mágoa nem nada que ouse
em descompasso dizer-
se saudade
Márcia Maia
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terça-feira, 17 de agosto de 2010
a day in a life
flávio machado©
as portas todas abertas
e a mesma escuridão por sob os olhos
inútil acender luzes e velas
inútil por demais arregalá-los
(
apenumbrapersiste
adensa-se
insiste
)
melhor talvez tentar um baseado
Márcia Maia
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Quarto-crescente
A bem da verdade, já não era sexta-feira e sim, madrugada de sábado. Fazia calor, o rio exalava um cheiro acre, e naquele bar, onde quase todos se conheciam, ele, que a poucos conhecia, tocava.
Não era bonito. Camisa em desalinho, sem gravata, calça social, sapato horrível, paletó esquecido numa cadeira qualquer. Viera de um casamento. E tocava como um deus. Um deus tropical, trôpego e lascivo, com olhos de anjo, boca e mãos de cafajeste.
À saída, beijou-a sem pedir licença. Longamente. A ela, que não o conhecia. Depois, olhou-a nos olhos e disse que tanto a esperara. Ela riu. Conversa fiada, pensou. Nada disse. Deixou que a beijasse de novo antes de partir.
Amanhecera. O calor aumentara. O hálito do rio sossegara. Os amigos se entreolhavam. Ninguém entendera nada. Nem ela. Mas os dias nunca mais foram banais como antes.
Márcia Maia
Márcia Maia
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