terça-feira, 17 de agosto de 2010

a day in a life


flávio machado©




















as portas todas abertas
e a mesma escuridão por sob os olhos

inútil acender luzes e velas
inútil por demais arregalá-los

                 (
     apenumbrapersiste
          adensa-se
            insiste
                 )

melhor talvez tentar um baseado



Márcia Maia

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Quarto-crescente


A bem da verdade, já não era sexta-feira e sim, madrugada de sábado. Fazia calor, o rio exalava um cheiro acre, e naquele bar, onde quase todos se conheciam, ele, que a poucos conhecia, tocava.
Não era bonito. Camisa em desalinho, sem gravata, calça social, sapato horrível, paletó esquecido numa cadeira qualquer. Viera de um casamento. E tocava como um deus. Um deus tropical, trôpego e lascivo, com olhos de anjo, boca e mãos de cafajeste.
À saída, beijou-a sem pedir licença. Longamente. A ela, que não o conhecia. Depois, olhou-a nos olhos e disse que tanto a esperara. Ela riu. Conversa fiada, pensou. Nada disse. Deixou que a beijasse de novo antes de partir.
Amanhecera. O calor aumentara. O hálito do rio sossegara. Os amigos se entreolhavam. Ninguém entendera nada. Nem ela. Mas os dias nunca mais foram banais como antes.



Márcia Maia


terça-feira, 10 de agosto de 2010

mergulho


no espaço exígüo
entre teus olhos e o sol
da tarde que se vai

pereço
afogo-me

a mim não me foi dado
saber nadar em águas rasas



Márcia Maia


domingo, 8 de agosto de 2010

A Visita





















Depois de subornar três serafins, todo um batalhão de anjos, dois arcanjos e um membro da alta hierarquia celeste, cujo nome, por razões óbvias, não pode ser revelado, finalmente ultrapassou os portões. Que portões? Do céu, elísio, paraíso, nirvana, como quiserem chamar. Que dá tudo no mesmo.
Estranhou no início a falta de vigilância. A sensação de liberdade, mesmo parcial, foi como um vento novo, uma brisa. Tinha apenas quatro horas. Depois de tantos anos, quatro horas! Mas, trato é trato. E este lhe custara caro.
Voltara para ver os filhos. Crescidos já. Um presente que se dava nesse dia. Dos pais. Encontrou-os reunidos em torno da mesa do jantar. Seis. Os filhos dos seus filhos. Quatorze. Seus netos. E as filhas do filho da sua filha: suas bisnetas, tão pequenas, ainda.
Ouviu conversas e risos. Pouco entendeu. Perscrutou suas faces. Os olhos, as bocas, as rugas. Os fios embranquecidos nos cabelos. Os risos. As vozes. Os gestos. Procurou vislumbrar-lhes a alma. Os traços de dor e alegria. Os medos. Os sonhos.
Depois, concentrou-se nos netos. Buscando em cada um a imagem que tinha de seus pais e mães pequenos, crianças ainda. Como eram quando partira. A contragosto, partira, evidentemente.
Súbito, deu-se conta de que, agora, seus filhos estavam, todos, mais velhos do que ele, o pai. Passara o tempo para eles. E se esgotava o seu. Hora de retornar.
Beijou cada um, filhos, netos e bisnetas, sem que o percebessem. Mas, cada um, de repente, sentiu vontade de falar do pai. Que partira há tanto. Do avô. Que não conhecera. Como um lampejo de saudade.
Terminado o jantar, despediram-se rindo e partiram. Ele, inclusive. Antes que para sempre lhe fossem fechados os portões. Do elísio, céu, nirvana, paraíso. O nome que lhe queiram dar.



Márcia Maia

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

quase um largo

kimimasa mayama ©















às oito e quarenta e um
a luz se fez
e cento e quarenta mil
num instante se apagaram

dois dias depois
repetiu-se o macabro espetáculo

(

                                             
                                              
                                               )


hoje o mundo pouco
lembra hiroshima

e há muito esqueceu de nagasaki



Márcia Maia

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

um corte


só de silêncio feito

sem sangue
ou faca



Márcia Maia


terça-feira, 3 de agosto de 2010

as afinidades eletivas



detalhes ínfimos. delicadezas quase-desapercebidas. calma e silêncio meio ao rumor mais denso. quietude de pôr-do-sol ao meio-dia. de isca de lua quando no céu a lua é cheia. um quê de bruma que cintila. e soma. sempre. inesperada e inexplicavelmente.



Márcia Maia


quinta-feira, 29 de julho de 2010

concerto breve



aos poucos
passo da manhã
à noite

da esfuziante claridade
que entontece
à plácida penumbra azulada
do anoitecer

e me acalmo
e me sonho
uma paz de água rasa
em contínuo movimento

mansas marés
escoando sobre mim
antes que amanheça



Márcia Maia


segunda-feira, 26 de julho de 2010

inércia


exausta
deito-me à margem do dia
sem viço

e sonho
alheios sonhos antigos
sem nexo



Márcia Maia


sexta-feira, 23 de julho de 2010

desdisse o amor tudo aquilo que eu dissera


desdisse o amor tudo aquilo que eu dissera
quando escrevi que era tudo e mais além

como pudeste escrever tanta tolice
e riu-se o amor (que de escárnio sabe rir
o amor também)
— nada disse fiz-me espera
e vi o amor se gabar do que não tem

(porque vaidade urde só parlapatice)
num vai e vem que não cansa de ir e vir

e chega aonde essa eterna romaria
o que farás dessa imensa zombaria
dize-me amor tu que agora ris assim
calou-se o amor nada dizer poderia

e em meus olhos leu aquilo que temia
quão tolo foste ao partir amor de mim



Márcia Maia


terça-feira, 20 de julho de 2010

Longe do Paraíso


Vagando à noite, sob a luz esverdeada dos letreiros de néon, sentia frio. Chovera. Nas esquinas empoçadas, nos vidros das vitrines mal iluminadas, se via refletida e não se reconhecia. Uma saudade de árvores lhe vazava o peito. Pensou em se jogar do viaduto. Demasiado urbano. Pensou em se jogar no rio. Mas não era rio aquela água escura e fétida cheirando a esgoto e desespero. Pensou em tantas saídas. Mas se escusou de entrar naquele teatro, que se dizia mágico, e se oferecia aos raros e aos loucos. Não, não era a hora de mostrar-se a si inteira e nua. Não agora. Não ainda.




Márcia Maia



sábado, 17 de julho de 2010

epigrama


em cada verso de amor
há um naufrágio iminente
um tsunami descrente
seu imanente furor

e um campo de margaridas

o resto é tolice
(artifício de escrita)
acácia desflorida no verão



Márcia Maia


quinta-feira, 15 de julho de 2010

cantiga


e se eu disser que não sei o que sinto
te digo e minto pois sei que guardara
a manhã clara nas mãos sob as saias
— ris ou me vaias se assim te disser

e se eu disser que é tal qual vinho tinto
digo e não minto sei que maculara
a manhã clara nos bosques de faias
— ris ou me vaias se assim te disser

e se eu disser que inteiro és-me indistinto
te digo e minto pois te procurara
na manhã clara dentre as samambaias

(de alvas cambraias fiz-te veste e cinto)
se em tuas praias meu barco atracara
— ris ou me vaias se assim te disser



Márcia Maia


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Octopus's Garden


Nem pitonisa nem serpente. Nem cigana nem mago. O novo vidente, sinal da modernidade dos tempos, é um molusco. Cefalópode. Bentônico. Da ordem dos octópodes. Com oito braços providos de ventosas. Concha ausente. Corpo globular. E sem nadadeiras. Um polvo! De aquário. Nem habitante do mar. Súdito exilado de Netuno. Vidrado em futebol. Acertou todas. Aos quatro ventos cantou a eliminação da sua pátria germânica. Talvez por cansado de aquário. E a vitória de España. Talvez por saudade do mar. Findada a Copa e temendo transformar-se em polvo ao chucrute ou mesmo em paella à moda alemã, roga proteção ao Greenpeace. E às sociedades protetoras dos animais. Não sabe se conseguirá.



Márcia Maia


sexta-feira, 9 de julho de 2010

concerto para uma só voz



a minha
           :
no mais profundo silêncio



Márcia Maia