sábado, 17 de julho de 2010

epigrama


em cada verso de amor
há um naufrágio iminente
um tsunami descrente
seu imanente furor

e um campo de margaridas

o resto é tolice
(artifício de escrita)
acácia desflorida no verão



Márcia Maia


quinta-feira, 15 de julho de 2010

cantiga


e se eu disser que não sei o que sinto
te digo e minto pois sei que guardara
a manhã clara nas mãos sob as saias
— ris ou me vaias se assim te disser

e se eu disser que é tal qual vinho tinto
digo e não minto sei que maculara
a manhã clara nos bosques de faias
— ris ou me vaias se assim te disser

e se eu disser que inteiro és-me indistinto
te digo e minto pois te procurara
na manhã clara dentre as samambaias

(de alvas cambraias fiz-te veste e cinto)
se em tuas praias meu barco atracara
— ris ou me vaias se assim te disser



Márcia Maia


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Octopus's Garden


Nem pitonisa nem serpente. Nem cigana nem mago. O novo vidente, sinal da modernidade dos tempos, é um molusco. Cefalópode. Bentônico. Da ordem dos octópodes. Com oito braços providos de ventosas. Concha ausente. Corpo globular. E sem nadadeiras. Um polvo! De aquário. Nem habitante do mar. Súdito exilado de Netuno. Vidrado em futebol. Acertou todas. Aos quatro ventos cantou a eliminação da sua pátria germânica. Talvez por cansado de aquário. E a vitória de España. Talvez por saudade do mar. Findada a Copa e temendo transformar-se em polvo ao chucrute ou mesmo em paella à moda alemã, roga proteção ao Greenpeace. E às sociedades protetoras dos animais. Não sabe se conseguirá.



Márcia Maia


sexta-feira, 9 de julho de 2010

concerto para uma só voz



a minha
           :
no mais profundo silêncio



Márcia Maia


terça-feira, 6 de julho de 2010

a eternidade em um dia


alfred eisenstaedt©

























1945
o grito preso na garganta alça voo e dançam
paris nova iorque moscou stalingrado

um olhar uma câmera um clique
um beijo efêmero e um instante eternizado

(
194619471948194919501951195219531954
195519551956195719581959196019611962
196319641965196619671968196919791971
197219731974197519761977197819791980
198119821983198419851986198719881989
199019911992199319941995199619971998
199920002001200220032004200520062007
20082009
              )

2010
morre em los angeles edith — que por conta
de um beijo jamais envelheceu



Márcia Maia


sábado, 3 de julho de 2010

Astronauta, não!



abril.09: letícia, 4 anos e 8 meses 
 
marciamaia©






















— Você vai ser o que quando crescer, Letícia?
— "Asquiteta".
— Oi, e você não queria ser engenheira ou médica?
— Também. Mas eu ainda não resolvi, vovó. Só não quero
ser astronauta.
— Por que?
— Pra não ser engolida por um buraco negro.
— Buraco negro?!
— É. Ele engole tudo. Engole até as estrelas. Sabia não?



Márcia Maia


terça-feira, 29 de junho de 2010

prestidigitação


sou a que se perdeu
a ausente
e embora esteja quase
                     sempre aqui
aparentemente presente
não sou eu a que me vêem
— tu e toda essa gente —
mas o esboço
                a sombra
                           o rastro
ou talvez apenas o reflexo
nas águas turvas de junho
da que fui
quando o inverno era
ainda
uma improvável e longínqua
                     possibilidade



Márcia Maia



sexta-feira, 25 de junho de 2010

bilhete antigo


















para Nando, muito tempo atrás



toque britten  albinoni
pachebel lloyd-weber e mozart
               :
a sarabanda o adágio
o cânon o pie jesu e a lacrimosa
— nessa ordem —
quando eu morrer
e deixe meus pés descalços

             (
 mas nada de flores
 lembre da minha alergia
              )

se puder
ponha bem junto a mim
um radinho
desses que têm gravador
pra eu ouvir
silence stardust e idalina
— tocados por você —
              :
antes de para sempre
adormecer



Márcia Maia


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Secreto


Deixa-me dormir um pouco, pedi. Ele sorriu. Beijou-me os lábios e a nuca. Deixou que a mão esquerda repousasse leve sobre meu ventre, a face áspera em minhas costas. E adormecemos, os dois, numa intimidade quieta que nem o tempo, com todas as suas voltas, nos foi jamais capaz de roubar.



Márcia Maia


segunda-feira, 21 de junho de 2010

simetria



solstício aqui
solstício lá

inverno aqui
esplendor de verão do lado de lá

um mesmo sol
um mesmo dia

e a distância a separar calor de alegria

que esta tanto faz
se pulsa aqui

ou se distante exorta a minha alma peregrina

a desistir
a emigrar



Márcia Maia


sábado, 19 de junho de 2010

garimpo


busco a palavra exata
que diga do que penso
            e nunca sinto
palavra-abismo
     de espaços vastos
palavra-nada
— como pedra —
lava de vulcão extinto



Márcia Maia


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Convite para dividir uma alegria:










































de tantos e diversos


há algo de rito
na mão que se fecha
em torno de outra
mão ou flor ou vaso
ou faca
e mesmo que hesite
afaga
poda enfeita
ou simples e crua
mata



Márcia Maia

para nos conhecer melhor, visite escritoras suicidas. tenho certeza que irão gostar.


terça-feira, 15 de junho de 2010

classificado



pintei a varanda de verde
e as paredes da sala de um negro-neon

troquei por marrom o bege das cortinas

sem pensar se combinam com o azul-petróleo
das janelas e do corredor

o sofá de um branco imaculado
e o tapete bordô tendendo ao vermelho

(o resto da casa — de portas trancadas
deixei como estava)

para que se acaso tu chegues em busca
do cheiro de noite na pele sob a camisola lilás

ao ver-te daqui estrangeiro

sem um ninho sequer no pinheiro te sintas
tentado a te me descobrir a nos reinventar



Márcia Maia


domingo, 13 de junho de 2010

cumpleaños



alongam-se os caminhos percorridos
encurtam-se os ainda a percorrer

no mais é passo e estrada
estrada e passo

até que mais não haja passo
que faça alguma estrada acontecer



Márcia Maia


De detalhes, faz-se a sina



nós, no natal de 2009


























Era 13 de junho: dia de Santo Antônio e São Fernando Pessoa. Santos portugueses. Dia, também, de Santo Yeats, irlandês. E ali, quase ao meio dia, com a sina traçada, eu nascia. Aos berros. Machucada de tempo perdido no trabalho de parto. Devia ter sido uma cesariana. Não foi. Ela é forte, a mãe, aguenta. Também teve que ser forte, o bebê: eu. No corredor, o pai ao telefone — jurássico — berrava: " É uma menina, linda, igual ao pai!" Que era lindo por dentro, o pai. E lá se ia aos poucos, completando-se-me a sina. Faltavam os sinos: tocaram ao meio-dia. E garantiram meu quinhão de alegria.
O tempo passou: tanto. Os caminhos — muitos — quase sempre pedregosos, com algumas pradarias. ( Lembram dos sinos?) Ou melhor, com algumas beiras-de-mar, que nunca gostei do campo. Que, aqui, se diz interior.
Sina cumprida, eis-me aqui: vivida de amor e poesia. Nem sempre felizes, amores e versos, sempre me valeu a pena vivê-los. Valem-me ainda. Como o pai, médica. Um tanto descrente e cética. E paradoxalmente, certa de que "tudo vale a pena, se a alma não é pequena", como escreveu um dos meus santos padroeiros.
Entre bruma e meio-dia, ostra e pássaro, pedra e vento, talvez, mar: assim eu sou. Uma mulher. Nada além. E como disse outro dia num poema, isso me encanta e basta.



Márcia Maia