quinta-feira, 17 de junho de 2010

Convite para dividir uma alegria:










































de tantos e diversos


há algo de rito
na mão que se fecha
em torno de outra
mão ou flor ou vaso
ou faca
e mesmo que hesite
afaga
poda enfeita
ou simples e crua
mata



Márcia Maia

para nos conhecer melhor, visite escritoras suicidas. tenho certeza que irão gostar.


terça-feira, 15 de junho de 2010

classificado



pintei a varanda de verde
e as paredes da sala de um negro-neon

troquei por marrom o bege das cortinas

sem pensar se combinam com o azul-petróleo
das janelas e do corredor

o sofá de um branco imaculado
e o tapete bordô tendendo ao vermelho

(o resto da casa — de portas trancadas
deixei como estava)

para que se acaso tu chegues em busca
do cheiro de noite na pele sob a camisola lilás

ao ver-te daqui estrangeiro

sem um ninho sequer no pinheiro te sintas
tentado a te me descobrir a nos reinventar



Márcia Maia


domingo, 13 de junho de 2010

cumpleaños



alongam-se os caminhos percorridos
encurtam-se os ainda a percorrer

no mais é passo e estrada
estrada e passo

até que mais não haja passo
que faça alguma estrada acontecer



Márcia Maia


De detalhes, faz-se a sina



nós, no natal de 2009


























Era 13 de junho: dia de Santo Antônio e São Fernando Pessoa. Santos portugueses. Dia, também, de Santo Yeats, irlandês. E ali, quase ao meio dia, com a sina traçada, eu nascia. Aos berros. Machucada de tempo perdido no trabalho de parto. Devia ter sido uma cesariana. Não foi. Ela é forte, a mãe, aguenta. Também teve que ser forte, o bebê: eu. No corredor, o pai ao telefone — jurássico — berrava: " É uma menina, linda, igual ao pai!" Que era lindo por dentro, o pai. E lá se ia aos poucos, completando-se-me a sina. Faltavam os sinos: tocaram ao meio-dia. E garantiram meu quinhão de alegria.
O tempo passou: tanto. Os caminhos — muitos — quase sempre pedregosos, com algumas pradarias. ( Lembram dos sinos?) Ou melhor, com algumas beiras-de-mar, que nunca gostei do campo. Que, aqui, se diz interior.
Sina cumprida, eis-me aqui: vivida de amor e poesia. Nem sempre felizes, amores e versos, sempre me valeu a pena vivê-los. Valem-me ainda. Como o pai, médica. Um tanto descrente e cética. E paradoxalmente, certa de que "tudo vale a pena, se a alma não é pequena", como escreveu um dos meus santos padroeiros.
Entre bruma e meio-dia, ostra e pássaro, pedra e vento, talvez, mar: assim eu sou. Uma mulher. Nada além. E como disse outro dia num poema, isso me encanta e basta.



Márcia Maia

sexta-feira, 11 de junho de 2010

sideral



quando toco o céu
na tua boca um mar
de estrelas brota em mim


Márcia Maia


segunda-feira, 7 de junho de 2010

Miudezas


A torneira sem água. O telefone mudo, mas com linha. Segunda-feira de contas a pagar. A Lua em Escorpião. A falta de paciência. O mal-estar.Uma canseira. E a sensação de estar overeacting. Superestimando. Fazendo drama, assim, em bom e claro português. Pra completar, Nana canta: ah, a solidão vai acabar comigo... Ah, saco! Bem feito! Quem mandou se apaixonar?



Márcia Maia

sábado, 5 de junho de 2010

crepuscular



brusco e róseo
no asfalto molhado — o grito

(sangue salpicado no vestido
e um buquê desfolhado na lata do lixo)



Márcia Maia


quinta-feira, 3 de junho de 2010

corpus christi


depois
do amor adormecido
teu

é esse
o corpo que venero
hoje

de homem — sem deus



Márcia Maia


segunda-feira, 31 de maio de 2010

um solo de trompete




madrugada quase amanhecer bar pouco recomendado um tanto kitsch cachorro de porcelana no balcão sofá de brocado grená gasto e manco peixe empalhado boca aberta sobre a porta do banheiro quadro de são jorge iemanjá de louça barata como vim parar aqui por que sempre perco-me aqui é no que dá sair sem rumo noite adentro com amigos nem tão amigos assim ou noite afora uísque barato batom borrado gosto de sal grosso amargo na boca e esta coisa no peito apertando aqui terminamos sempre sós e sem rumo todas as noites perderam o prumo tanto tempo faz salva-se a música blues sopro trompete só o blues caberia nestas noites azul-escuras obscuras por que retorno por que finjo não doer e rio e bebo fumar não fumo um baseado às vezes com joão joão toca violoncelo perdeu-se na solidão das noites como eu ah essa dor esse cheiro esse incômodo esse tão imenso cansaço e volto sempre sei porque volto finjo não saber não querer mas enquanto houver este solo de trompete volto pelo beijo apaixonado do trompetista ao final da noite de cada noite tão certo neste bar como o cachorro de porcelana e o sofá grená



Márcia Maia


sexta-feira, 28 de maio de 2010

balanço


do silêncio à solidão a tarde oscila
amarela e escarlate como rede
ensangüentada na trama

no silêncio a solidão se faz de morta
violácea volta e meia enrubesce
vê-se espinho crê-se rosa

e o silêncio em silêncio agoniza


Márcia Maia


quarta-feira, 26 de maio de 2010

Soneto de entrega

henri matisse©


















Amar é entregar. Tudo te dou.
Não porque tu me pedes porque quero.
Pois te sei livre em mim portanto espero
em ti livre perder-me: aqui estou.
Quero o grito o encanto o mel o vôo
oceano e deserto reverbero
sob o toque das mãos tuas: bolero
só audível a mim quando em ti sou.
Mais que flor ofertada aberta ao falo
sou suor sou galope e contra-canto
o teu corpo no meu corpo abrilhanto
e em mil sóis saberei multiplicá-lo
:
gozo imenso eterniza a cavalgada
e enrubesce de inveja a madrugada.



Márcia Maia


segunda-feira, 24 de maio de 2010

Rotina


Era quase sempre madrugada quando, trôpego, retornava adivinhando caminhos e estrelas. A bem da verdade, perdia-se, às vezes. Já batera em porta errada, dormira em banco de praça, acordara na calçada, abraçado ao cachorro do vizinho. Mas, quase sempre, chegava são e salvo. Subia as escadas, abria a porta sem ruído, tirava os sapatos, e entrava, pé ante pé, na casa adormecida. Em silêncio. Para não despertar a solidão.



Márcia Maia

sábado, 22 de maio de 2010

como epidemia


como se em tantos o mesmo
tempo se tecesse
e as distâncias amanhecessem
duplicadas
estende-se a saudade
— como epidemia —
nas manhãs de sábado



Márcia Maia

quarta-feira, 19 de maio de 2010

tinto


tarde:

célere escorre
o sangue
vivo rio vazante
da mão esquerda
às margens
bordadas do lençol
e
gota
     a
     gota
até o tapete persa
raríssimo
tingindo-o de rubra vida

                      passada



Márcia Maia


segunda-feira, 17 de maio de 2010

Inferno astral ou da falta que um Nike faz


 jose antonio hernandés©












Derrapou e caiu. Um segundo de descuido, e estava no chão. A droga do tênis novo, todo cheio de riquififfis, salamaleques, amortecedores de gel e silicone, não era à prova de chuva. Menos ainda de calçada esburacada, folhas caídas e lodo. Deveria vir com um aviso: impróprio para uso no outono/inverno. E agora, a perna doía, a calça cheia de lama, por pouco não se rasgara, a mão arranhada, sangrando, a sombrinha quebrada. E três prestações da porra do tênis ainda por pagar.



Márcia Maia