sexta-feira, 14 de maio de 2010

longe é um lugar que ainda existe


a habitual e inevitável discrepância
do tempo-espaço presumido como quântico
assim sentido assim vivido como dogma
imiscuindo às equações do dia-a-dia
cotidiana e virtual geografia
(e onde encontrar perfeita rima para dogma?)
que se desliza ardente e doce como cântico
e faz o aqui sentir-se ali sem mais distância
até que um dia faz-se urgente e essencial
estar-se perto — e a emoção rompe a cortina
mas há o espaço e há o tempo de permeio
(newtoniano e pragmático floreio)
e a teia quântica esgarçada se arruína
na inevitável discrepância habitual



Márcia Maia

quarta-feira, 12 de maio de 2010

louva-deus

entre as hastes da persiana cor-de-gelo
se alojou um louva-deus de um verde
tão tenro de esperança
que comove

sobrevoa vez em quando a cama e o micro
e pousa displicente na colcha do beliche
por sobre e dentre os livros
de poesia

está aqui há quatro dias

e eu me pergunto o que quer o que pretende
um louva-deus no seu verde tão tenro de
esperança que comove
neste quarto

cor-de-gelo como a cor da persiana onde já
ninguém habitualmente habita além do
micro e da tevê e
do beliche

onde a sono solto hibernam as lembranças
meio a versos dentre os livros esquecidos
e outros mais a
escrever

estão aqui há quatro anos

e agora enquanto a madrugada se desfia
em guns n' roses cantando bob dylan
se revestem de esperança
e enverdecem

como fosse possível transmutar-se o gelo
da persiana e das paredes mais o velho
vermelho do beliche
pelo vôo

entontecido de algum simples louva-deus



Márcia Maia

domingo, 9 de maio de 2010

Do verbo amar

27.09.2004















Sabe, minha filha, eu engano tanto Deus, disse mamãe. Eu ri.Engana como, perguntei. Assim: quando seu pai morreu e vocês seis eram tão pequenininhos, eu pedia a Ele que me deixasse viver pra ver vocês adultos, cada um formado ou na faculdade, donos das suas vidas, porque então eu poderia morrer tranquila. Mas, aí, você casou e teve Felipe. E eu pedi a Ele pra me deixar ver Felipe crescer. Sem falar nos outros netos. Quando Felipe fez vestibular pra medicina, pedi pra Ele me deixar ver Felipe médico como o avô. E agora que Letícia nasceu, perguntei eu, que já não sabia se ria ou chorava, vai pedir mais um tempinho? Não, ela disse. Agora, não mais, que já estou velha. Mas tenho pedido, todo dia, pra Ele cuidar de você e lhe deixar viver até, pelo menos, você ser bisavó.



Márcia Maia

sexta-feira, 7 de maio de 2010

parecer


sabiam a despenhadeiros
os olhos da mulher deitada na areia
a pântanos   a mar

sabia a absolvição   a saída
o esboço de sorriso nos lábios da mulher
morta na areia

afogada — pouco antes — à hora do jantar



Márcia Maia


quarta-feira, 5 de maio de 2010

de silêncios


silêncio
de lua cor-de-romã madura
à janela

de canto
antigo cantado em francês ou
espanhol

de vento
brincando nos galhos do ipê e
do pinheiro

de gente
em alvoroço a caminho do
futebol

silêncio
de abismos escondidos nas pregas
dos vestidos

de mãos
acarinhando do amado o corpo
nu e ausente

de noite
fria que se alonga e se escusa à
madrugada

de nada
além de mim sentada aqui só
como sempre



Márcia Maia

terça-feira, 4 de maio de 2010

Para sempre



De olhos fechados, eu me movia para cima e para baixo, como um pêndulo, no movimento circular que ele, sob mim, mãos machucando-me o seio esquerdo e a cintura, tanto gostava. Gozei primeiro e, sem pressa, esperei até que ele gozasse, para cravar o canivete, três centímetros e meio à direita da metade do pescoço, abrindo-lhe, a um tempo, a jugular e a carótida, no momento exato em que, dentro em mim, ele jorrava. Sempre ouvi dizer que morrer na hora do orgasmo eterniza o gozo.



Márcia Maia

domingo, 2 de maio de 2010

sossego




hank nieman©






















morno de amor e madrugada
estende-se ainda o corpo
— nu e lasso —
entre os raios da manhã
que ultrapassam a treliça
e as flores adormecidas
dos lençóis azuis

é domingo e o tempo não urge
flutua desdobra-se desliza
como água mansa de riacho
maré vaga de silêncio
sobre o dia



Márcia Maia


sexta-feira, 30 de abril de 2010

tango


um tango na vitrola um vermute

à meia-luz na sala
promessa de pecado e de desfrute
mas inda se cala

aberto até acima do joelho
revela-se o vestido
decote debruado de vermelho
como prometido

e a mão conduz a mão até a dança
desliza no cabelo
daí ao colo à boca ao corpo e avança
mais — sem atropelo

e agora o que era dança beijo seja
e o que se oferecia
tomado e repartido se anteveja
como apetecia

(...)

manhã terno e vestido em desalinho
a um canto do sofá
um corpo noutro corpo faz seu ninho
— o que mais falar?



Márcia Maia

quarta-feira, 28 de abril de 2010

21 gramas


pudesse talvez um legista
dissecar-me os 21 gramas
perdidos à hora da morte
e que se crê sejam a alma
encontraria 20 gramas de vazio
um de descrença e absolutamente
nenhuma calma     tampouco alma



Márcia Maia

segunda-feira, 26 de abril de 2010

La media vuelta


gian carlo amici©




















Sorriu. Deixou que ele abrisse o vinho. E quando pôs o velho disco na vitrola, sabia o que fazia. Voltara a caminhar beirando abismos. Cairia. Mas, dessa vez, conhecia os caminhos de voltar.



Márcia Maia


domingo, 25 de abril de 2010

poeminha cínico


mesmo o mais cinzento dos domingos
diz-se azul quando amanhece

ainda que em meio a terremotos
maremotos tempestades

mesmo o amor mais corrosivo sabe
a mel quando engatinha

ainda que respingue sangue e fel
a cada passo

mais importa o prometido que o
que encerra

à luz dos dias a crua e cínica
e vã realidade

sendo assim seguem sempre azuis
e doces os amores e os domingos

a propaganda é a alma do negócio
bem se sabe



Márcia Maia

sexta-feira, 23 de abril de 2010

desconstrução


digo não  desisto e sigo
adiante sem olhar
para trás  em vão prossigo
nessa ânsia de buscar
a saída que não há
não me contenho  maldigo
o caminho onde mitigo
a angústia de cegar-
me  esse vão cruel castigo
de em mim desacreditar

calo-me  quebro o antigo
espelho  o que sobrar
é sangue e cacos  desdigo
a dor rubra a alucinar-
me o riso a me avermelhar
a noite onde não consigo
adormecer  desobrigo-
me de auroras  sou mar
chumbo e bravio  sou figo
apodrecido ao luar



Márcia Maia

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Bucólica



Da cor de caramelo eram os seus sapatos. E em nada combinavam com a calça jeans escura e a camisa leve de algodão clarinho que usava. Você sorria como se nada importasse além do centro antigo da cidade, dos casarões pintados de cor-de-rosa, azul ou amarelo-claro, das escadas de madeira escura que se bifurcavam, dos lustres de cristal, da tarde. E me contava, olhos brilhando, histórias dessa terra que é a sua.
Pouco adiante, onde o jasmineiro floria em grená, a Poesia nos aguardava em sua praça, sob o olhar complacente do piano carcomido que a escada sustentava, e a benção do herói cujo sangue, há tanto derramado, tinge ainda o chão dessa cidade, não de rubro, mas de cobre, que em tudo se assemelha à cor de caramelo que colore seus sapatos.



Márcia Maia

segunda-feira, 19 de abril de 2010

like a rider in the sky


cavaleiro das nuvens me apresento
dia e noite ao sabor
do vento norte
dentre as cores do ocaso
ou ao nascente
inocente do que sei
não do que posso

varo os dias no sentido das estrelas
e as noites a buscar vãos
passarinhos
sou irmão das corujas
dos morcegos
dos dementes e mendigos
sou abrigo

se no céu quando o sol brilha
inscrevo a vida
em meu peito minhas mãos
de amor vazias
quase sempre inscrevem
noite inscrevem
morte

cavaleiro das nuvens
me apresento
dia e noite
ao sabor
do
vento
norte



Márcia Maia

sexta-feira, 16 de abril de 2010

desobrigação


wang xiao song©





















abro mão da obrigação
de ser feliz na sexta
à noite

de sair copo a copo

corpo a corpo
bar em bar

basta-me um pouco

de quietude de
silêncio

o balanço da cadeira

na penumbra da
varanda

(copo de vinho solo

de jazz quinteto de
mozart)

a noite azul qualquer

estrela alguma
lua

e a lembrança da tua

boca das tuas mãos
como arrepio

em minha pele




Márcia Maia